Nasceu João Salomé Queiroga, na cidade de Diamantina, segundo uns, e na Vila do Príncipe, hoje cidade do Serro, segundo outros. Não ha certeza também sobre a data do seu nas­cimento, que é fixado em 1810 ou 1811. Sabe-se que fez os seus primeiros estudos em sua província natal, tendo seguido depois para Olinda, onde se bacharelou em ciências jurídicas no ano de 1837.

Quando em São Paulo, em 1828, fez parte da Sociedade Filomatica, com seu irmão Antonio Augusto Queiroga, Francis­co Ribeiro, Fernandes Torres, Carneiro de Campos e outros. Exerceu a magistratura em Minas Gerais e Pernambuco, tendo sido nomeado desembargador da Relação desta Provincia, car­go que não chegou a exercer.

Em Minas, já na velhice, dedicou-se á advocacia, tendo si­do juiz de direito em Ouro Preto, onde faleceu repentinamente no dia 2S de Agosto de 1878.

Salomé Queiroga colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro, Minas e Pernambuco, especialmente na  Actualidade, que se publicava no Rio, sob a direcção de Flavio Farnése e Ber­nardo Guimarães, e no Jequitinhonha, de Diamantina.

Publicou dois livros de poesias e um romance. “São publi­cações serôdias e tardias, escreve Silvio Romero, contudo têm prestimo; são de 1870 a 73; contudo encerravam versos, de 1829” por estes versos é que o velho mineiro entra neste capitulo, pois foi ele um dos mais interessantes  poetas do periodo de transição romantica, muito embora não houvessem as suas poesias  aparecido em momento oportuno. Silvio Romero acha que o prologo  do Canhenho de poesias brasileiras,  seria o prefacio do Cromwell do nosso romantismo, “se fosse bem escrito e aparecesse oportunamente”.

João Salomé Queiróga, guardou por muitos anos a sua produção, publicando-a quasi “guidamente no Rio de Janeiro, entre os anos de 70 e 73.

São as seguintes as suas obras publicadas:

Canhenho de poesias Brasileiras – Tip. de E. e H. Laemmerk _ Rio _ 1870 – 212 pgs. in 8.°.

Arremedos _ Lendas e Cantigas  populares – Tip. Perseverança _ Rio – 1873 – in 8.°.

Maricota e o padre Chico – Lenda do Rio São Francisco

_ Tip. Perseverança _ Rio – 1871 – 133 pgs. in 8.º.

Salomé Queiroga foi um dos continuadores do lirismo mineiro, placido e singelo, sem grandes arroubos ou vôos altaneiros. A sua poesia é antes simples, algumas vezes  humorística, contudo sempre espontânea e pessoal, salvo aquelas em que o poeta foi buscar sua inspiração nas poesias de Victor Hugo. Destas,  Silvio Romero respigou algumas vasadas nas Contemplações.

A poesia popular e lendaria, que predominou na obra poetica de Salomé  Queiroga traz nos versos do velho mineiro a nota caracteristica do romantismo da segunda geração, da qual ele foi um dos mais nítidos preculsores.

O velho Queiroga era um temperamento romantico, nacionalista, e tinha a preocupação do brasileirismo na literatura. Nos Arremêdos, declara explicitamente ter garbo em escrever em linguagem brasileira, condenando alguns escritores brasileiros que ainda se ”aferram á velha estrada portuguesa”. Este seria o pensamento de José de Alencar, alguns anos depois.

” Nossa linguagem – escrevia Salomé Queiroga – que tem sido até pouco tempo só portuguêsa, vai-se refazendo com os novos escritores e para o futuro ela será outra bem diversa. O gosto nacional é o grande acontecimento do fim do século, ele vai-se apoderando de tudo, faz erupção por toda a parte e tudo inunda”.

Estas palavras encerram o programa do nosso romantismo, que, entre nós, foi uma das expressões mais nacionalistas da vi­da brasileira.

A poesia popular e sertaneja, cultivou-a Salomé Queiroga com incontestável superioridade, e neste particular muito se aproxima dos mais notaveis poetas da pleiade nortista da segun­da geração, sendo muitas vezes superior a alguns deles.

Silvio Romero tratando com demasiada severidade o velho Salomé, não trepida em acusá-lo de plagiario, comparando sete peças líricas, respigadas das Contemplações de Victor Hugo, com outras tantas do vate mineiro. Não vemos, examinando cui­dadosamente estes versos, que o autor dos Arremêdos, haja co­piado o poeta das Orientais. Jaboti, Aza de amor, Suplica, Pi­tanga-doce e tantas outras, são antes para frases, onde se nota mais uma forte influência do genio francês, que uma apropria­ção indebita dos versos hugoanos.

Apesar da afirrnativs de Silvio Romero, de que a copia ha­via sido completa, não lcgramos encontra-la. Nos versos dos dois poetas, o francês e o brasileiro, só conseguimos divisar os pon­tos de contacto proprios das parafrases e traduções. Estas, fê­las o velho mineiro, com muito engenho e muito talento.

A olharmos a nossa literatura, e mesmo a exotica, através da lente com que o ilustre critico sergipano examina o poeta mi­neiro, quantos plagiarios andarão pelas letras nossas e estranhas? No Romantismo, a predilecção por determinados autores e á in­fluência de certas correntes foi tão grande, que nos leva a duvi­dar da originalidade de certos escritores, juizo que, depois de acurado exame, somos imparcialmente levados a modificar.

Mais tarde, no Compêndio da História da Literatura Bra­sileira, o proprio Silvio Romero, talvez chamado á razão pelo Sr. João Ribeiro, modificou a sua atitude anterior, julgando que Salomé Queiroga “imita, parafraseia ou traduz, principalmente a Victor Hugo, contudo com talento poetico”. (1)

(1) Silvio Romero e J. Ribeiro – Compendio de História da Literatura Brasileira – cít., pg· 196.

Este julgamento é exacto e com ele concordamos inteiramente.

Nas poesias de Salomé Queiroga, aparece de vez em quando a nota satírica, genero que aliás manejava com dificuldade. As suas convicções politicas e “ideais extremados de liberalis­mo, _ escreve Xavier da Veiga, – deram a grande numero de suas composições poeticas a nota satírica não só partidaria contudo pessoal: neste ponto, ultrapassando as raias convenientes, ia além do insigne Nicolau Tolentino que só visava dar “golpe nos costumes”. (2)

(2) Xavier da Veiga _ Efemerides Mineiras – cít., III – pg.282.

E’ especialmente na poesia tradicionalista, lendaria e popular que achamos as melhores produções de Salomé Queiroga. O Irmão Lourenço, o Menino Diabo, a Negra, a Mulata, a La­vadeira do Lucas, e quantos outros, são magnificos especimens no genero em que mais tarde brilhariam os poetas nortistas da segunda geração romantica.

O veio explorado por Salomé Queiroga, trinta anos antes de Trajano Galvão, Gentil de Almeida Braga e Juvenal Galena, mostra-nos que o velho mineiro já tinha concretisado em sua alma o espirito nacionalista, que daria ao nosso Romantismo as suas mais belas criações. Nisso está o seu maior merecimento.

 

 

Fonte: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

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