O advento do Romantismo no Brasil, foi precedido de duas fases preparatorias, perfeitamente distintas, separadas por um periodo de estagnação literaria, tanto na prosa, como na poesia. A este periodo intermediario, prendem-se alguns publicistas e jornalistas que encheram as tres primeiras decadas do seculo XIX.

A primeira fase, proto-romantica, começada pelos poetas do grupo mineiro, espontânea e independente de qualquer in­fluência europeia, estendeu-se até os fins do seculo XVIII, quando, o epilogo do drama da conjuração mineira calou as liras dos poetas de Vila Rica. Alguns epigonos desta fase, chegaram ao seculo XIX, sendo o poeta Manoel Inacio da Silva Alvaren­ga o mais notavel dentre eles.

O periodo que a separa da seguinte, que chamamos post­mineiro, é ocupado pelos predecessores imediatos do romantismo, individuas que não tiveram a minima parcela de influência no advento da nova escola, e, simplesmente, encheram o vasio que se formou entre as duas fases extremas: — proto romantica e de transição romantica. Figuraram quasi todos no movimento separatista, desde a chegada da família real bragantina até o 7 de Abril; foram poetas religiosos ou patrióticos, publicistas, historiadores ou moralistas, preocupados ou envolvidos nos suces­sos da independencia, que avassalava todos os espíritos da época. Deles, já tratámos em capitulos anteriores.

A fase seguinte, de transição romantica, adotando o crite­rio de Silvio Romero, foi começada pelos poetas que frequen­tavam as Academias de São Paulo e Olinda, por volta de 1829, todos adeptos das novas doutrinas literarias, já correntes na Eu­rnpa. Esta fase estende-se até 1836, data oficial do inicio do nosso Romantismo, com a chegada dos Suspiros Poeticos e Sauda­des, de Gonçalves ode Magalhães.

Os poetas da fase de transição romantica, todos de pequeno vulto, devem ser lembrados, mais pelo papel que representaram de antecessores imediatos da nova escola, do que pelo valor li­terario de suas obras. A esse modesto grupo de poetas, coube a gloria de preparar a primeira geração rornantica, surgida com a Maioridade, geração esta que recebeu com a patria emancipada, um patrimonio literario precioso, enriquecido depois pelo Ro­mantismo, nos quarenta anos em que dominou despoticamente a inteligencia brasileira.

Nas letras e nas artes, na oratoria e na politica, na historia e na filosofia, nessa era de fulgurações brilhantes, passaram ta­lentos fecundos, centêlhas de genio… Um Gonçalves Dias, um Alvares de Azevedo, um Alencar, um Nabuco, um Castro Al­ves, bastariam para gloria de um povo e grandeza de uma época.

A Carta Constitucional de 1824, excelente especimen de romantismo politico, na frase de Silvio Romero, assentava sobre tres utopias romanticas : — o sufragio universal, a unidade da soberania, e o equilíbrio do mandato.

Outorgada, em 1824, para um povo que acabava de saír, trôpego, do absolutismo, e que passára num salto de colonia oprimida pelo despotismo a imperio constitucional; outorgada em 1824, a Constituição Política do Imperio do Brasil é um do­cumento que assombra pelo seu liberalismo.

O primitivo projecto, organisado pela comissão presidida por Antonio Carlos, foi apresentado á Constituinte na sessão de 1.º de Setembro de 1823. Este projecto, continha todas as gran­des conquistas do sistema representativo; e todos os grandes prin­cipias das liberdades constitucionais, — escreve Homem de Melo, — eram aí proclamados. Assim, promulgava a liberdade pessoal, a garantia da propriedade, a publicidade do processo, a abolição do confisco e das penas infamantes, a liberdade da imprensa, a liberdade da industria, a liberdade religiosa, a instituição do juri, e um sem numero de concessões liberais. Acontecimentos poste­riores á apresentação do liberalismo projecto de Antonio Carlos, impediram a sua votação.

Na sessão de 12 de Novembro de 1823, Vilela Barbosa, — o famoso deputado que se opuzera á independencia da sua patria nas Côrtes de Lisbôa, — ameaçava com o absolutismo a Assem­bleia que se preparava para votar a Constituição mais liberal do mundo, naquela época.

No manifesto que dirigiu aos brasileiros, em 16 de Novembro de 1823, justificando a dissolução da Constituinte, prome­tia o imperador outorgar ao Brasil uma Constituição mais libe­ral que a esboçada no projecto Antonio Carlos, apresentado á Assembleia, poucos dias antes dissolvida.

Cumpriu o imperador a obrigação. A Carta Constitucional de 24, além dos principios liberais adotados no projecto Anto­nio Carlos, continha outros, não menos avançados.

Esse liberalismo romantico, improprio para um povo inculto, recem saído das garras do absolutismo, e que assentava a sua economia sobre a instituição da escravidão; esse liberalismo ro­mantico, que deveria reger os actos de um rei absoluto por indo­le e temperamento, foi a causa das grandes agitações que sacudiram o Brasil, até á Maioridade.

Os grandes patriotas da Regencia, compreenderam que, para mànter a órdem e o prestigio da autoridade, urgia cercear a Constituição, criada sob a ilusão de uma miragem ótimista.

O golpe de Estado de 30 de Julho de 1832, que preparara o Acto Adicional de 12 de Agosto de 1834, reajustára o pacto cons­titucional dentro das necessidades da Nação, garantindo assim a integridade do imperio e a tranquilidade das provincias.

O deputado Paulo de Araujo, defendendo o parecer da comissão que apresentou a reforma, corajosamente declarava, em plenario:

“As circunstancias do Brasil são as mais críticas possiveis; não padecem delongas. Devemos adotar qualquer, medida que possa salvar o Brasil. Eu tremo com a ideia de revolução nas provincias, porque a considero como o principio de separação delas e de desmembração do imperio, donde resultará que, em lugar de sermos uma nação poderosa, seremos o escarneo das outras nações; formaremos pequenos estados insignificantes”.

Diante desta franqueza, em meio do fervilhar das paixões, a Assembleia curvou-se ao parecer que optava pela reforma constitucional, e aprovou-o.

O Acto Adicional de 1834 completou o trabalho dos patriotas de 1832. A Regencia Una, estabelecida pela reforma, reforçava a autoridade do governo central, criando, pela supressão dos presidentes electivos nas provincias, uma ditadura velada; exerceram-na Feijó e Araujo Lima, sem o que não teriam conseguido deter a anarquia e a indisciplina que lavravam em todo o país. Outras medidas radicais, cerceando a liberdade excessiva da Carta de 24, gerada numa exaltação de sensibilidade romantica, evitaram que a Nação se precipitasse no abismo das desordens e das revoluções.

Mais tarde, quando o desvario romantico atingiu o Parlamento e o “liberalismo palavroso” enchia as sessões da Camara e do Senado, houve quem atirasse o apodo de “anarquistas e inimigos da monarquia”, aos patriotas radicais de 1832 e 34.

O decenio da Regencia, é uma das mais nobres e honrosas paginas da nossa historia.

“A sua grande obra, foi a Reforma Constitucional, escreve ; João Ribeiro, obra que salvou o imperio e a unidade da grande patria, em cuja produção dolorosa perdeu a popularidade do mo­mento para ganhar a admiração das gerações”.

As Academias de Direito de São Paulo e Olinda, foram os ninhos de onde abriram o vôo os condores do Romantismo.

Pelas arcadas dos conventos de S. Francisco, em São Pau­lo, e de S. Bento, em Olinda, passaram todas as gerações romanticas. São Paulo e Olinda foram os dois grandes fócos da infecção romantica, na frase do Sr. Paulo Prado.

Olinda, pelas suas tradições coloniais, conservou durante al­guns anos uma certa rigidez pragmática no ensino, nitidamente reflectida no caracter da juventude que ali se educava; São Pau­lo, pelas condições especiais de seu clima e do seu meio, influiu mais largamente na constituição do espirito da mocidade, tornan­do-se o principal centro do nosso romantismo.

A cidadesinha fria e melancólica, envolvida sempre num véo de garôa, com seus muros de taipa vermelha e o casario de lar­gos beirais, esbatendo-se nas tardes cinzentas, foi um meio pro­picio para o desenvolvimento do mal romantico.

Alvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Aureliano Les­sa, Fagundes Varela e quantos outros, cometiam no velho burgo paulistano os maiores desvarios; á noite, nas tavernas dos bair­ros afastados, ceavam com morféticos e embriagavam-se em com­panhia de cafusas e sararás, devoradas pela sífilis; ou, imitando as orgias de Newstead, coroados de rosas, bebiam cachaça em crâneos humanos.

A primeira tentativa para fundação dos cursos jurídicos no Brasil, partiu de José Feliciano Fernandes Pinheiro, depois Visconde de S. Leopoldo, que apresentou á Constituinte, um proje­cto criando duas Universidades, com sédes em São Paulo e Olin­da. Mais tarde, em 5 de Julho de 1826, o Conego Januario da Cunha Barbosa apresentou um projecto de lei á Assembleia Le­gislativa ,criando um curso de ciências jurídicas e sociais no Rio de Janeiro.

Por proposta do deputado paulista Francisco de Paula Souza e Melo, foi o projecto substituido por um outro, datado de 8 de Agosto de 1826, que mandava criar dois cursos jurídicos, um em São Paulo e outro em Olinda.

Depois de variadas discussões e emendas, é o projecto apro­vado no ano seguinte, e transestabelecido em lei a 11 de Agosto de 1827.

Regulamentado o decreto pelo Visconde de Cachoeira, foram instaladas em São Paulo, no convento de S. Francisco, e em Olinda, no convento de S. Bento, as novas academias, cujas aulas se abriam a 1.° de Março de 1828. Nelas, armaram-se ca­valeiros quasi todos os grandes homens que dirigiram os desti­nos do Brasil e foram os pioneiros do seu desenvolvimento in­telectual.

A literatura romantica francêsa, começou a chegar ao Bra­sil por volta de 1829. Florian, Marmontel, Chateaubriand, Hu­go, de Vigny e Lamartine começaram a ser lidos pela geração que, por esse tempo, frequentava as Academias de São Paulo e Olinda. Surgiram, então, antes de 1836, os primeiros vôos ro­manticos, ainda incertos e claudicantes. Foram essas manifesta­ções literarias, já impregnadas de romantismo, que definiram a fase de transição, imediatamente anterior a Gonçalves de Ma­galhães e Porto-Alegre.

Procuraremos esboçar, rapidamente, os seus mais eminen­tes representantes.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

Advertisements