Filho de João de Melo Franco e de d. Ana Caldeira, nasceu Francisco de Melo Franco na cidade de Paracatú, em Minas Ge­rais, aos 7 de Setembro de 1757. Estudou preparatorios no Se­minario de S. Joaquim, no Rio de Janeiro, partindo depois para Coimbra, onde se matriculou nas faculdades de medicina e filo­sofia.

Cursava Melo Franco a Universidade, quando, com a quéda do Marquês de Pombal, deixou D. Francisco de Lemos a sua direcção, sendo então nomeado para substitui-lo o primaz da igreja pratriarcal, José Francisco de Mendonça. Esta nomeação deu lugar a graves conflitos no seio daquele instituto, provocados pelas conhecidas tendencias retrógradas do novo Reitor.

Foi quando, em principios de 1784, começaram a aparecer em Coimbra algumas copias de um manuscrito anonimo, em forma de poema satírico, intitulado O Reino da Estupidês. A autoria deste poema foi atribuida primeiramente ao dr. Antonio ­dos Santos, e depois ao padre Souza Caldas e a Ricardo Rai­mundo Nonato, lente da Universidade. Só muito mais tarde hou­ve a certeza de que o seu autor era Francisco de Melo Franco, que o fizera em colaboração com José Bonifacio.

Perseguido pela Inquisição, por enciclopedista e crime de “imoralidade y irreligião”, esteve Melo franco encarcerado e Coimbra durante quatro anos. Nesta ocasião compoz um volume de elegias — Noites sem sôno — livro feito de uma ironia amarga, onde se “descreve as miserias do genero humano, a degeneração dos denfensores da Fé, e a crueldade desses algozes sagrados, que sacrificaram a inocencia a seus vãos caprichos”.

Tendo deixado o carcere e conclui do o seu curso de medi­cina, fixou Melo Franco sua residencia em Lisbôa, onde teve grande clinica e foi tido como um dos mais ilustres cientistas do seu tempo. Foi vice-presidente da Academia Real de Ciencias, um dos fundadores da Academia de Geografia e medico da Ca­mara Real.

Em 1817, ao partir para o Rio de Janeiro a arquiduquêsa Maria Leopoldina, foi Melo Franco, a convite de D. João VI, encarregado de acompanha-la na qualidade de seu medico.

Fixando sua residencia naquela ,cidade, dedicou-se Melo Franco á clinica, continuando ainda a servir como medico da família real.

O satírico mineiro mostrou-se inteiramente alheio ao mo­vimento da independencia, apesar de ser um espirito culto e li­beral. Não concordamos porisso com a afirmativa do Sr. Artur Mota, que diz ter Melo Franco perdido o prestigio que tinha junto á familia real, pelo facto de se haver empenhado com en­tusiasmo pela causa da independencia.

Já na velhice, ficou Melo Franco reduzido á extrema pe­nuria, com a falencia de um seu amigo a quem confiára todos os seus haveres. Doente e desgostoso, mudou-se para São Paulo, a fim de tentar novamente recuperar a saúde e rehaver a for­tuna .

Viajando certa vez em canôa, de Santos para o Rio de Janeiro, faleceu em Ubatuba, aos 22 de Julho de 1823.

Deixou Melo Franco variadas obras científicas e literarias, tendo publicado a maior parte de seus trabalhos, alguns dos quais lograram sucessivas edições.

Resposta ao filosofo solitario, em abono da verdade, por um amigo dos homens — Lisbôa — 1787 — in 4.°de 56 pgs.

Resposta segunda ao filosofo solitario, por um amigo dos homens — etc. — Lisbôa — 1787 — in 4.° de 47 pgs.

Tratado de educação física dos meninos — para uso da na­ção portuguêsa, publicado por ordem da Academia Real de Cien­cias — Lisbôa — Tip. da Academia — 1790 — in 4.° de 129 pgs.

Medicina teologica ou suplica humilde feita a todos os se­nhores confessores é directores sobre o modo de procederem com os seus penitentes na emenda dos pecados, principalmente da luxúria, cólera e bebedice — Lisbôa — 1794 — in 4.° de 151 pgs.

Sobre a vacina — Lisbôa — 1812 — 14. (13 opúsculos reu­nidos em volume).

Elementos de higiene — ou ditames teóricos e praticos para conservar a saúde e prolongar a vida. Publicados por odem da Academia Real de Ciencias — Lisbôa — Tip. da Academia — 1814 — in 4.° de 364 pgs. Ha uma 2.ª edição de Lisbôa — 1819 — e uma 3.ª de Lisbôa — 1823.

O Reino da Estupidez — poema heroi-comico — em 4 can­tos. Paris — 1819 — in 16.°. Deste poema foram tiradas mais cinco edições. Paris — 1821; Lisbôa — 1833; Paris — 1834; Rio de Janeiro — 1910 e Belo Horizonte — 1922.

Teófilo Braga refere-se a uma edição de Hamburgo, tira­da em 1820 e uma de 1868, que não conhecemos.

Ensaio sobre as febres — com observações analíticas ácerca ela topografia e clima do Rio de Janeiro e demais particularida­des que influem no caracter dos filhos, etc. — Lísbôa — 1829 — in 4.° de 213 pgs.

Deixou ainda Melo Franco, publicado nas Memorias da Academia Real de Ciencias (Tomo V — parte I), um discurso recitado na sessão publica da Academia, quando seu vice-presi­dente, e um Epicedio á morte do Dr. José Ferreira Leal, inclui­do na “Colecção de poesias ineditas dos melhores poetas portu­quêses — Lisbôa — 1810 (Tomo II, pg. 71).

As suas Noites sem Sono, escritas nos Carceres da Inquisição, em Coimbra, ficaram ineditas.

Pela bibliografia de Francisco de Melo Franco, chega-se á conclusão que o mineiro dedicou-se mais á literatura medica do que ás belas letras. Todavia, só pelo Reino da Estupidez, poema aliás muito medíocre, deve ser ele incluido em nossa historia li­teraria, onde, aliás, a poesia satírica foi pobremente cultivada. Antes de Melo Franco, no genero, apenas merecem ser lembra­dos os nomes de Gregorio de Matos no seculo XVIII; de Gon­zaga, nas Cartas Chilenas; e de Silva Alvarenga, no Desertor das Letras. Juvenal, Horacio, Nicolau Tolentino, e Cruz e Silva, foram os mestres dos poetas satíricos brasileiros, na maior parte desenxabidos e sem inspiração.

Neste periodo, outros poetas cultivaram o genero satírico, em condições muito inferiores a Melo Franco, Tomaz Gonzaga c Silva Alvarenga; assim foram Costa Gadelha, Antonio Men­des Bordalo, João Pereira da Silva, o padre Silverio de Paraópeba e quantos outros.

Francisco de Melo Franco compôs o seu Reino da Estupidez com o fim de demolir o prestigio do elemento clerical na Universidade de Coimbra.

O poema é dividido em quatro rincões, e apareceu pela primeira vez em manuscritos firmados por Felicio Claudio Lucre­cio. No poema de Melo Franco, a Estupidez, banida dos paises civilisados da Europa, vem assentar seus arraiais em Portugal, onde chega acompanhada do Fanatismo, ela Superstição e da Hipocrisia. Escolhendo para séde ele seu reino a cidade de Coim­bra, aí recebe as homenagens dos doutores e teologos que pro­fessavam na Universidade, cujo reitor, o Primaz Mendonça, convoca em Claustro a congregação, para recebe-la condigna­mente:

“Do fertil Portugal quasi no centro

A vistosa Coimbra está fundada

E pelo cume do soberbo monte,

E pelas fraldas, que o Poente avistam,

Vai-se ao longe- estendendo, até que chega

A beber do Mondego as mansas aguas.

Defronte outra montanha- senhoreia

A liquida corrente dividida

De longa ponte pelos grossos arcos.

Apraziveis campinas, ferteis vales

Do cristalino Rio retalhado,

Em forno o cercam, os habitantes dando

Os mais belos passeios do Universo.

Da fronteira montanha, que dominam

Dois famosos conventos, se disfruta

A linda perspectiva da cidade,

Que tem tanto de bela, quanto é dentro

Imunda, irregular e mal calçada.

A terra é pobre, é falta de comercio,

O povo habitador e gente informe,

Avarenta, sem fé, sem probidade,

Inimiga cruel dos Estudantes,

Mas amiga de suas pobres bolsas.

Aqui de muito tempo está fundada

A nobre Academia Lusitana.

O monstro que é dotado de cem olhos,

Que de longe avista os mais pequenos vultos,

Que debaixo do této o mais finado,

Nada se passa sem lhe ser notorio;

O monstro que por outras tantas bocas,

Quanto sabe, e não sabe, põe patente,

Aqui em altas vozes apregoa,

Que vem a Estupidez em breve tempo

Seus dominios cobrar, seu Diadema,

Armada de terrível companhia.

Na minha fantasia acende, ó Musa,

Um fogo vivo; põe na minha lingua

Expressiuas palavras com que pinte

As proezas, que vou dizer agora.

A Academica gente alvoroçada

Não pensa, não conversa n’outra cousa;

Em quasi todos geralmente reina

Excessiva alegria, e nos conventos

De que consta a cidade em grande parte,

Mandam os Guardiões, que os rejeitarias,

De mais vinho, e presunto se reencham.

Da Universidade o grande Chefe

Um Claustro universal convoca logo,

Pr’a que em pleno conselho votem todos,

O que deve fazer-se n’ este caso.

Em comprido salão, cujas paredes

Ricamente comportas tem em ordem

Dos Lusitanos Reis proprios retratos,

Em soberba cadeira se apresenta

O Reitor, e por um e outro lado

Os lentes, e Doutores assentados,

Segundo o vão capricho destinára,

A dar o seu parecer s’aprontam todos.

Tira nisto o barrete o Presidente,

E ao lente Primaz de Teologia,

Acena que comece; logo feita

Ao congresso em geral, submissa venia,

O seu voto profere n’ estes termos:

“Muito ilustres e sabias Academicos:

“Por Direito Divino e por Humano,

“Creio, que deve ser restituída

“A’ grande Estupidez a dignidade,

“Que nesta Academia gosou sempre.

“Bem sabeis, quão sagrados os direitos

“Da Antiguidade são; por eles somos

“Ao lugar que ocupamos elevados.

“Oculta vos não é a violencia,

“Com que foi d’ esta posse desbulhada.

“Vós testemunhas sois dos sentimentos

“Com que a vimos partir tão desprezada;

“Perene sempre, apesar de seu desterro,

“Constante tributei dentro em meu peito

“Homenagens devidas, á que fôra

“Na minha infancia carinhosa Mestra,

“E na velhice singular Patrona”.

No ultimo canto, o Reitor convida a Universidade a com­parecer incorporada ao beija-mão da Estupidez, que se alojára no Convento dos Conegos Regrames de Santa Cruz. Finda a cerimonia, a Estupidez depois de ouvir a Oração da Sapiencia, abençoa a magna assembleia:

“Em paz gosai (a Deusa que profére)

“Da minha protecção, do meu amparo.

“Eu gostosa vos lanço a minha bençam;

“Continuai, como sois, a ser bons filhos.

“Que a mesma, que hoje sou, hei de ser sempre”.

No decorrer do poema aparece uma invocação á memoria do Marquês de Pombal, que teria sido um indicio seguro para a descoberta do seu autor.

Segundo a tradição, o poema foi escrito em quinze dias, tendo na sua feitura colaborado o velho José Bonifacio. “Hoje passados cem anos, — escreve Teófilo Braga, — são os versos desse poema um quadro pitoresco, vivo, sarcástico, pintado do natural e em flagrante realidade. Isto basta para justificar a necessidade de conhecer este valioso documento literario que se tornou historico”.

O poema de Melo Franco é pesado, sensaborão, salvando-se um ou outro trecho, onde o autor mostra algum talento poetico, como na descrição de Coimbra, no Canto III, que transcrevemos.

A obra, feita com mesquinhos intentos de vingança, é, co­mo a Festa de Baldo, de Alvaro de Macedo, um produto negati­vo. Porisso, enquadra-se-lhe perfeitamente este conceito de Sil­vio Romero: — “a obra de arte só resiste ao tempo, quando é o documento de um momento historico, quando reproduz a ver­dade humana”.

Melo Franco era um homem instruido, estudioso, escrevia bem o vernáculo e manejava com segurança o latim, o italiano, o francês e o inglês. Como medico e naturalista, teve o autor do Reino da Estupidez mais merecimento do que como poeta. To­davia, só nos interessa esta ultima feição do seu talento, que, infelizmente, não nos legou uma obra como as Cartas Chilenas, sem o amaneirado da mentira e da falsidade, muitas vezes produtos de despeitos incontidos, desabafados nos versos de um Reino da Estupidez ou de uma Festa de Baldo.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937

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