Em Julho de 1779, nascia em Fóra de Portas, na Freguesia de São Frei Pedro Gonçalves, na cidade do Recife, Frei Joa­quim do Amor Divino Caneca. Era filho de Domingos da Silva Rabelo e d. Francisca Alexandrina de Siqueira, moradores na­quela cidade, onde Rabelo exercia a profissão de tanoeiro. Desta profissão adveio-lhe a alcunha de Caneca, que, mais tarde, o fi­lho adotou como sobrenome.

Muito cedo revelou-se Frei Caneca um caracter altivo, im­petuoso e independente, aliado a uma esclarecida e lucida inte­ligencia.

Adolescente ainda, entrou para o noviciado do Convento do Carmo, onde, a 8 de Outubro de 1796, recebeu ordens sacras. Dedicou-se então ao magisterio, regendo durante tres anos uma cadeira do curso de humanidades. Tão bem se houve Frei Ca­neca dessa incumbencia, que, aos 26 anos de idade, era nomeado Lente de Retórica e Geometria, e professor de Filosofia na rida­de do Recife.

Exerceu na mesma época o cargo de deferidor da Ordem do Carmo e secretario de Frei Carlos de São José e Souza.

O seu temperamento altivo e exaltadamente liberal, lançou-o bem cedo nas lutas democráticas, tornando-se, em pouco, um destemido polemista e terrivel propagandista de ideias revolu­cionarias. Participou Frei Caneca de todas as agitações que sa­cudiram Pernambuco no começo do seculo XIX, não como um doutrinador ou condutor ele homens, contudo sim como um agitador de paixões e instigador de odios.

Na reacção nativista de 1817, formou Frei Caneca ao lado de Domingos Martins, de Barros Lima, de Teotonio Jorge, che­fes do movimento sedicioso. Os pruridos separatistas de Per­nambuco, pretendendo arrastar o norte e o nordeste do Brasil, começaram com esta revolução.

Governava a provincia Carlos Pinto de Miranda Montene­gro, magistrado probo e integro, quando um grupo de descon­tentes, chefiados pelo negociante Domingos José Martins, rompeu as hostilidades com o assassinio do brigadeiro Barbosa de Castro, perpetrado pelo capitão José de Barros Lima, o Leão Coroado.

Foge então o governador para a fortaleza do Brum, entre­gando a cidade aos sediciosos, que nela instalaram um governo provisorio, presidido por Domingos Martins.

Vencida a revolução, a alçada militar condena á morte oito dos seus chefes e deporta grande numero de implicados no mo­vimento. Frei Caneca foi mandado para a Baía, em cuja cadeia permaneceu, até que a anistia de 1821 permitisse o seu regresso a Pernambuco.

Em 1822 encontramo-lo na cidade de Alagôas, lecionando Geometria, sendo depois removido para Recife, onde durante dois anos foi professor de Retórica, Poética, Filosofia Racional e Moral. Frequentou por esse tempo as aulas do matemático Dr. Antonio Francisco Bastos, com quem aprendeu Calculo e Mecânica.

Data dessa época a grande exaltação patriótica de Frei Ca­neca, e a sua tremenda campanha jornalística contra Pedro I, feita pelas colunas do Tifis Pernambucano, o pequeno orgam de cujas paginas o frade carmelita ateou a chama da rebelião.

A dissolução da Constituinte de 1823 repercutira em Per­narnbuco, exaltando os animos já então irritados com a conduta da junta provisoria, que, premida pelas ameaças de um governo civil, resignára a 13 de Dezembro de 1823. Procedendo-se á eleição da nova junta, coube a presidencia a Manoel de Carvalho Pais de Andrade, ex-intendente da Marinha, que reunia em torno de sua pessoa os mais extremados adeptos da separação da provincia.

Os idealistas democraticos e republicanos, á frente dos quais estava Frei Caneca, desfraldam ostensivamente a bandeira se­paratista, e fazem, com verdadeiro escandalo, a sua propaganda pelas colunas do Tifis Pernambucano.

Este jornal, cujo primeiro numero saíu em 25 de Dezem­bro de 1823, era um hebdomadario de pequeno formato, e tinha Frei Caneca como seu principal redactor. Ao exibir o seu primeiro numero, escrevia o frade caemelita, transbordante de patriotismo regional:

“Quando a náu ela patria se acha combatida por ventos em­bravecidos; quando pelo furor das ondas ela ora sóbe ás nuvens, ora se submerge nos abismos; quando, levada do furor dos euri­pos, feita o ludibrio dos mares ela ameaça naufragio e morte, to­do cidadão é marinheiro; um deve sustentar o timão, outro por a cara o astrolabio, ferrar o pano outro, outro alijar ao mar os fardos que a sobrecarregam e afundam, cada um prestar a deli­gencia ao seu alcance e sacrificar-se pelos seus concidadãos em perigo.

“Firme neste principio eu levanto a vóz da minha pequenez, e te falo oh! Pernambuco, patria da liberdade, asilo da honra, alcacar da virtude!

”’Em ti floresceram os Vieiras, os Negreiros, os Camarões, e os Dias, que fizeram tremer a Holanda e deram espanto ao mundo universo; tu me déste o berço, tu ateaste no meu coração a chama celeste da liberdade, contigo eu descerei aos abismos da perdição e da deshonra, ou a par de tua gloria voarei á eternidade”.

Nos primeiros numeres do Tifis Pernambucano, absteve-se Frei Caneca de atacar a pessoa do imperador, mas, com a mar­cha dos acontecimentos e a tensão cada vez maior dos animos na provincia, dicidiu-se o carmelita a investir contra D. Pedro, cuja popularidade cada dia mais diminuia aos golpes rudes do frade revolucionario”. Quem jamais poderia padecer de sangue frio que estivesse a sua patria dando seis mil cruzados a um bandalho para este arruina-la e perde-la”? — pergurtava indignado o redactor do Tífis.

Exacerbava-se assim, cada vez mais colérico e desabrido, o monge pernambucano. Abertamente prégava a rebelião, a des­obediencia á autoridade, e aconselhava a separação, como unico remedio contra o “governo arbitrario, iliberal, despótico e violento” de Pedro I.

Frei Caneca era um homem ousado, inteligente e dotado de uma energia inquebrantavel.

Embebido do liberalismo romantico dos enciclopedistas francêses, era um espirito democratico e republicano, a quem repu­gnavam os processos despóticos do primeiro imperador. E por­isso, a sua actividade em prol da separação de Pernambuco, ex­plica-se como uma consequencia de sua exaltação romantica, que lhe obscurecendo o entendimento e a razão, fazia-o tomar o sacrilegio da seccessão da patria, como um lance heroico de patriotismo.

Pondo a sua bela inteligencia, a sua coragem, a sua intrepidez, e as suas raras qualidades de polemista arguto, a serviço de um movimento antipático e condenavel em sua essencia, Frei Caneca fe-lo por um impulso irreflectido, que o seu caracter colérico e arrebatado explica e justifica. Deve absolve-lo a Histeria por esse lado, contudo nunca pretender eleva-lo ao mesmo altar em que se acham aqueles que consolidaram a nacionalidade, ou trabalharam e morreram pela conservação do patrimonio, gran­de e unido, que receberam de outras gerações.

Somos dos que condenam, por principio, esta vesania de se­paratismo que atacou os pernambucanos e rio-grandenses, no pri­meiro reinado e na Regencia. Porque enaltecermos, glorificarmos e qualificarmos de patriotas a esses sacrílegos que sonharam e tentaram realizar a fragmentação do gigantesco patrimonio que receberam integro e unido dos antepassados?

“Temos vivido — escreve o Sr. Alberto Rangel — e com a mais lôrpa das inconsciencias, a endeusar, mesmo para uso “las escolas, os arautos e fomentadores da Revolução e da partilha rio Brasil, a beatificar a insubmissão á Autoridade Central, a glorificar a Revolta e os seus corifeus. Com seus nomes procura­mos esmaltar as paginas dolorosas de nossa historia : Pais de Andrade, Bento Gonçalves, Pedro Ivo e quantos outros”.

Suspendamos o culto exagerado que nos ensinaram prestar a esses ambiciosos demolidores da nacionalidade. Ponhamos, com isenção de animo, os Frei Caneca, os Domingos Martins, os Ben­to Gonçalves, os Pedro Ivo, em seus lugares de réus de lesa-pa­tria, e assim deveremos friamente julga-los.

Em 1857, escrevia F. A. de Varnhagen, sobre a revolução de Pernambuco:

“Vão já decorridos quarenta anos depois desta insurreição, e os sucessos narrados com pouco exame a vão convertendo em um mito heroico de patriotismo, não brasileiro, contudo provincial, sem base algum. A verdade é só uma, e ha de triunfar, em vista dos documentos que vão aparecendo e dos protestos dos homens comprometidos, contudo probos e ilustrados; e mais prudente é não elevar tantos altares, para depois se derrubarem e profanarem”.

Esquecer a nação pela provincia, diz um publicista americano citado por Varnhagen, é um sintôma de dissolução politica: é o principio de um estado de cousas, igual ao da América Cen­tral. O provincialismo que os revolucionarios pernambucanos e riograndenses puzeram acima do ideal da patria unida, foi o unico interesse que arrastou na voragem do separatismo alguns brasileiros ilustres, que, com mais honra, poderiam ter penetra­do na Historia.

Ergamos nossos louvores, exalcernos um Andrada, um Feijó, um Silva Tavares, um Marquês de Caxias. Não consintamos contudo, que se procure desmerecer os serviços desses grandes patriotas, para enaltecer aventureiros que se lançaram nos aza­res de uma guerra civil, para satisfação de mesquinhos interes­ses regionais.

Frei Caneca era um temperamento morbido, sujeito a al­ternativas de cólera e melancolia, contudo ousado, decidido e inte­ligente. Inimigo nato do despotismo, espírito revolucionario, ín­dole rebelde, não compreendeu a acção benefica, que no equili­brio nacional, exercia a força centripeta do trôno. Faltava-lhe a visão larga de um José Bonifacio ou de um Evaristo da Veiga, e não possuia siquer as qualidades de muitos daqueles que im­piedosamente condenava em seus flamejantes artigos do Tifis Pernambucano.

A revolução de 2 de Julho de 1824, que proclamou a Confederação do Equador, e que sob a bandeira azul e branca das províncias confederadas do Brasil Oriental, pretendeu mutilar o imperio, merece a nossa irrevogavel condenação. A posteri­dade não póde glorificar um movimento que, pela sua acção centrífuga, acabaria com a grandeza da patria, desagregando-a e fragmentando-a em pequenos estados livres, que, sem forças pa­ra se manter em posição de equilibrio estavel, acabariam presas faceis de outras nações mais fortes e poderosas.

A leitura do Tifis Pernambucano, deixa-nos a impressão de que os revolucionarias pernambucanos tinham como causa certa e decidida o desmembramento setentrional do país, e na inconsciencia do crime que cometiam e do perigo a que se expu­nham, atiraram-se cegamente á aventura. O cadafalso para al­guns e o fuzilamento de Frei Caneca, preso na capitulação do Juiz, em 29 de Novembro, foi o epilogo trágico do mais antipá­tico movimento revolucionaria que se fez no Brasil.

A execução de Frei Caneca foi cercada de grande aparato. Como sacerdote, teve de padecer a desautoração de ordens para cumprir a pena de morte.

Na madrugada de quinta-feira, Janeiro, dia 13, de 1825, foi o frade rebelde conduzido ao adro da igreja do Terço, no Re­cife, e ali paramentado com as vestes do ritual. Diante de um altar, especialmente montado para esta cerimonia, foram-lhe re­tiradas, entre rezas e rincões liturgicos, peça por peça, as vestes sacerdotais. Concluída a degradação, recebeu a alva dos conde­nados e caminhou para o patibulo.

Começa, então, o prestigio lendario do frade pernambuca­no. O crioulo João da Costa Palma, soldado da escolta que acom­panhava o réu, morre repentinamente. O pardo Agostinho Viei­ra, sentenciado na Cadeia de Recife, nega-se a executar o con­denado, apavorado com o ruido estranho que se fizera ouvir, quando o frade subia ao patibulo. Dois pretos, também senten­ciados, apesar de espaldeirados a couce d’armas, recusam-se fir­memente a consumar o suplício.

Diante desta situação, criada mais pelo caracter sacerdotal do condenado, resolve o clero implorar o perdão do réu. Nega-se a Alçada a atende-lo, qualificando-o ainda de “louco e incurial”.

Finalmente, entregue á justiça militar, é Frei Caneca fuzi­lado no largo de Cinco Pontas, em Recife padecendo aliás morte menos degradante que a forca.

Frei Caneca morreu corajosamente, sem renegar jamais as suas ideias e convicções politicas. Nunca se acovardou. Foi um valente e teria sido um heroi, se não houvera traído a sua fé patriotica em beneficio de uma aventura que, pelo seu caracter regional, merece sem duvida a condenação da Posteridade.

A obra de Frei Caneca foi toda reunida pelo Comendador Antonio Joaquim de Melo, e publicada sob o titulo de Obras Po­líticas e Literarias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca ­Recife – 1875 – 2 vols.

A obra do frade Pernambucano é constituida de cartas, polemicas, artigos politicos e panfletarios, sermões, poesias líricas e patrioticas. Escreveu ainda um Itinerario do Ceará, relatorio do seu “exodo revolucionario até os altos sertões daquela pro­vincia, depois da tomada de Recife, em 1824”; uma Gramatica Portuguêsa, escrita na Cadeia da Baía, segundo a tradi­ção; um Tratado de Eloquencia, em forma de antologia; uma Dissertação sobre a Patria, Orações sacro-apologéticas, e as Car­tas de Pítias a Demão, a sua obra mais interessante.

Na colecção do Tifis Pernambucano, encontram-se numero­sos artigos politicos de Frei Caneca, que fez deste jornal a sua arma de propaganda revolucionaria.

As suas poesias são quasi todas de caracter patriotico, exaltando a coragem, a bravura e o destemor da morte. Consolando o seu amigo Nicolau Martins Pereira, que desmaiára em cami­nho da fôrca, escrevia o frade pernambucano:

“Não tenhas Nicolau menor saudade

De a existencia perder na flôr dos anos,

Heróis houveram gregos e romanos,

Que acabaram a vida por vontade.

Catão, tendo perdido a liberdade,

Em si crava o punhal, previne os danos,

E Socrates entregue a vis tiranos,

Bebe a cicuta e vôa á eternidade.”

As poesias de Frei Caneca trazem sempre uma nota acen­tuada de patriotismo e destemor da morte, que eram como que as uniras preocupações de sua vida.

“Quem passa a vida que eu passo,

Não deve a morte temer;

Com a morte não se assusta

Quem está sempre a morrer.

A medonha catadura

Da morte fria e cruel,

Do rosto só muda a côr

Da patria ao filho infiel.

Tem fim a vida daquele

Que a patria não soube amar:

A vida do patriota

Não deve o tempo acabar.

Oh! morte porque não vens

Findar meus dias fatais?

Se vivo, vivo penando;

Morrendo, não posso mais.”

Mesmo quando caía em melancolía, o que era comum depois elas violentas crises de cólera e arrebatamento que o assaltavam, era Frei Caneca um poeta patriotico.

Assim, antes de ser conduzido para o cadafalso, ainda teve forças e inspiração para compôr os sentidos versos que come­çam pela conhecida quadrinha:

“Entre Marilia e a patria

Coloquei meu coração;

A patria roubou-m’ o todo

Marília que chore em vão.”

Na polemica e nas cartas, não tem artificios; mostra-se tal qual é — ríspido, áspero e grosseiro.

Retratando um seu inimigo, José Fernandes Gama, descre­ve-o desta forma o violento polemista:

“Uma arara na crueldade e lingua bífida; abutre no fétido e gosto pela podridão; condor na voracidade; falcão no bico negro e aguçado; gavião na audacia; môcho nos maus agouros; pavão no orgqlho : cuco na ingratidão; e para acabar de uma vez o retrato: debaixo da figura de uma arara um diabo; e ain­da era pouco um arquidiabo. Deixa de ser arara e fica como dantes rei dos ratos. É mais facil que o sol esfrie, que a neve abraze, do que tu não roeres tudo quanto roer se possa; tu és capaz de roer daí mesmo o que está no côncavo da lua”.

Tal é a linguagem terrivel e causticante de Frei Caneca em seus escritos politicos e panfletarios.

Ao revés, no Itinerario do Ceará, mostra-se um prosador singelo, calmo e fluente. Corre a sua prosa, sem um arrepio que lembre a aspereza de seus escritos revolucionarios.

Toda a sua obra reproduz fielmente os estados de alma com que foi escrita. Vasava-os no papel, sinceramente, sem rebuços nem artificios.

Frei Caneca teve a virtude rara de se não afastar em toda a sua vida, mesmo diante da morte, do ideal que abraçára ; de fronte erguida, seguiu, sem temor, o roteiro que predelineára, muito embora os acontecimentos mais de uma vez lhe mostras­sem que se norteva para o cadafalso.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

Advertisements