Cinco anos depois da transladação da familia real braganti­na para o Brasil, surgia no Rio de Janeiro O Patriota, jornal li­terario, politico, e mercantil, que, sob a direcção do poligrafo baiano Manoel Ferreira de Araujo Guimarães, inaugurava em 1813 o periodismo brasileiro. Anteriormente, contudo, aparece­ra em Londres, saído das oficinas Lewis, o Correio Brasiliense de Hipolito da Costa. Este pequeno jornal, surgido em 1808, e que, durante treze anos se publicou á sombra do liberalismo in­glês, teve um papel importantissimo na preparação da nossa in­dependencia, e largamente influiu na geração de publicistas do periodo imediatamente anterior ao Romantismo.

José Bonifacio, Cairú e Hipolito da Costa, são os tres va­lores maximos da campanha que antecedeu o 7 de Setembro. Foi o primeiro o organisador, o segundo o teorista e o terceiro o pro­pagandista da nossa emancipação politica. A estes tres grandes vultos cabe o patriarcado da nossa independencia, honra exclu­sivamente atribuída á José Bonifacio que, talvez pela sua vida agitada, se destacou mais do que os seus ilustres companheiros, no cenario político do Brasil, naquele período memorável.

Nasceu Hipolito José da Casta Pereira Furtado de Mendo­ça, na antiga Colonia da Sacramento, aos 13 de Agosto de 1774. Fez os seus estudos preparatórios na, Rio de Janeiro, passando-­se depois para Coimbra, onde se matriculou na Faculdade de Leis e Filosofia. Concluindo o seu curso jurídico, fai mandado em 1798, pelo governo português, em missão especial aos Estados Unidos, de onde regressou para ocupar o lugar de director da junta literaria da Impressão Regia, em Lisbôa.

Em 1801 foi encarregado de ir á Inglaterra adquirir ma­quinismos para as oficinas da Imprensa, e comprar livros para a Biblioteca Nacional.

Regressando a Lisboa em Julho de 1802, foi denunciado á Inquisição como pedreiro-livre, tenda sido preso e encerrado nas segredos do Santo Oficio. Em 1805, graças ao auxilia da Maço­naria, conseguiu Hipolito evadir-se, refugiando-se na Inglaterra, onde permaneceu até á sua morte.

Em sua Narrativa da perseguição, publicada em Londres em 1811, descreve Hipolito o processo em qne esteve envolvido, e narra as perseguições que padeceu da Inquisição. Tentaram por variadas vezes os inquisidores do Santo Oficio, por intermedio do gaverno português, obter da Inglaterra a extradição do pu­blicista brasileiro.

Desatendidas as insistentes reclamações da embaixada por­tuguêsa em Londres, ficou Hípolito da Costa perfeitamente ga­rantido; e então, confiante na protecção do liberalismo inglês, abriu sua campanha em favor da independencia do Brasil e da defeza das instituições liberais no reino de Portugal. Para isso, começou em 1808 a publicação do Correio Brasiliense, revista mensal, política e literaria, em cujo primeira numero se decla­rava explicitamente, que ela seria a defensora da autonomia do Brasil e das direitos conspurcados dos cidadãos brasileiros.

Diante da audacia do escritor patrício, redobrou a diploma­cia portuguêsa os esforças para o encarcerar novamente nos se­gredos do Santo Oficio. Resistiu, contudo, o governo britânico, decidindo-se então D. João VI a fundar em Londres um jornal destinado a lutar contra as proposições de Hipolito. Apareceu as­sim, o Investigador Português em Inglaterra, com redatores tão venais, escreve Eduardo Perié, que o governo teve de suspender a publicação, confessando-se vencido perante o grande jornalis­ta brasileiro.

Contra a propaganda do Correio Brasiliense em favor da Independencia do Brasil, ordenou o principe D. João sevéras me­didas, proibindo a introdução do periodico londrino no Rio de Janeiro. Não obstante a proibição real, conta um biografo de Hi­polito da Costa, até nos aposentos do rei e das princêsas apareciam, misteriosamente, numeras do Correio Brasiliense.

Durante treze anos padeceu a côrte portuguêsa os repetidos golpes de Hipolito, e não havia acto, decreto ou medida do go­verno português referente ao Brasil, que não padecesse a analise e a crítica do redactor do Correio.

Instruido, altamente versado em ciencias economicas, dota­do de qualidades excepcionais de escritor e publicista, habituado a um liberalismo pratico, sem arrancadas romanticas, era Hipo­lito da Costa um admiravel condutor da avaliação publica, e um brilhante propagandista de ideias praticas. E este foi o seu principal papel no movimento da independencia.

Cada pagina do Correio Brasiliense é uma lição de patrio­tismo, e cada artigo de Hipolito da Costa é uma estrofe dessa epopeia grandiosa que, começada em 1789 em Vila Rica, teve seus ultimos rincões na defeza da Lapa e no heroismo do Campo Osorio, em 1894 …

Aqueles que procuram numa literatura sómente a poesia e as criações artísticas, escreve Silvio Romero não são talvez os mais proprios para compreender uma vida e uma obra como a de Hipolito.

Hipolito da Costa foi o impulsionador da independencia , a sua revista de Londres foi a arma poderosa com que combateu o despotismo, a prepotencia, a tirania, o relaxamento e o auli­cismos da côrte portuguêsa. Das colunas do Correio Brasiliense, Hipolito da Costa espalhava pela Europa e pela America os des­mandos do governo português, criticando e analisando com os poderosos recursos de sua dialetica, os erros e a ignorancia da administração bragantina.

O Correio Brasiliense foi ainda uma revista de propaganda do Brasil. Ali se encontram minuciosas estatisticas, interessan­tes investigações sobre a produção industrial e agricola da co­lonia, estudos sobre a importação e exportação dos principais portos brasileiros, os remedios para fomenta-la, patenteando em tudo um sagrado entusiasmo pela nova Canaam que se acabava de abrir ao mundo civilizado.

Espirito mais livre e desabusado do que o Visconde de Cai­rú, na expressão de Silvio Romero, era tambem Hipolito melhor prosador, possuindo um estilo mais ameno, e uma forma mais elegante e menos rebuscada que a do publicista baiano.

Embora vivesse longe da patria, grande foi aqui o prestigio de Hipolito, no decenio que precedeu o 7 de Setembro. Em 1817, os revolucionarios pernambucanos convidaram-no para ministro da Confederação do Equador, junto ao governo britânico, reco­nhecendo nele um lidimo representante das novas correntes libe­rais. Mais tarde, depois da proclamação da independencia, foi no­meado pelo primeiro imperador consul geral do Brasil em Lon­dres.

Em 1823 encerrou Hipolito da Costa a publicação do Correio Brasiliense, dando por findo seu trabalho de propagandista.

“Nunca o jornalismo, abraçou mais nobre causa, — escreve Eduardo Perié — e nunca tambem jornalista algum alcançou maior triunfo. Podia depôr a pena, estava escrita a sua epopeia, e o seu nome atirado aos vindouros, jamais poderia perecer”. Entre­tanto, um injusto esquecimento tem pesado sobre o nome desse homem benemerito, que teve coragem e alento para lutar duran­te treze anos contra o oficialismo de dois paises, em defeza de principios que adoptara, sem visar ou esperar outra remunera­ção além da independencia de sua patria e da vitória de seus ideais.

Em toda a vicia publica de Hipolito da Costa, só encontrou Silvio Romero um erro — a cessão do territorio ao norte do Amazonas, aconselhada pelo ilustre publicista brasileiro. Quanto ao mais, escreve o crítico sergipano, suas vistas eram largas e descortinavam largo ambito pelo futuro a dentro.

Finalmente, a 11 de Setembro de 1823, falecia em Londres Hipolito da Costa, aos 49 anos de idade,deixando nos vinte e nove volumes do Correio Brasiliense a história de todo o perio­do que preparou o advento da independencia. Descansou um ano depois do 7 de Setembro, como se fôra talhado sómente para cumprir a gloriosa missão de propagandista da liberdade da pa­tria, de semeador de idéias liberais e orgam propulsor dos gran­des movimentos que deslocaram a nacionalidade naquele momento histórico.

Pela sua coragem e pelo seu atilado patriotismo, pela sua cultura e pela sua erudição, e sobretudo pelo inestimavel valor de sua obra jornalistica, foi um dos maiores, ou quiçá, o maior dos publicistas desse periodo memoravel, em que o Brasil penetrou no limiar do seculo XIX.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

Advertisements