Nasceu Inacio Accioli de Cerqueira e Silva na cidade de Coimbra, em Portugal, no ano de 1808, sendo filho do desem­bargador Miguel Joaquim de Cerqueira e Silva.

Veio para o Brasil ainda criança, quando seu pai foi despachado juiz de fóra de Vila Nova do Marajá, no Pará, criada em 1811. Mais tarde, passou-se Accioli para a Baía, quando seu pro­genitor foi designado para servir como ouvidor da comarca de São Francisco.

Na cidade do Salvador fez os seus primeiros estudos, ingressando com 14 anos de idade na milicia cívica que se organi­sára na Baía, por ocasião da independencia. Não obstante haver feito quasi todo o curso de direito, não se formou, tendo, entre­tanto, exercido durante muitos anos a profissão de advogado.

Durante a campanha separatista, distinguiu-se Accioli como soldado valente e patriota, tendo tomado parte em numerosos combates. O governo imperial, em recompensa aos seus serviços, conferiu-lhe a patente de tenente-coronel honorario do exercito. Exerceu ainda os cargos de Director do Teatro São José, na Baía, nos periodos de 1833-36 e 1845-48.

Já na veíhice, em 1853, viu-se Accioli reduzido á penuria, tendo resolvido então mudar-se para o Rio de Janeiro, onde foi acolhido pelo dr. Alexandre José de Melo Morais, seu amigo,  em cuja casa viveu por mais de seis anos.

Por influencia de Melo Morais, concedeu o governo impe­rial uma pensão de 100$000 mensais a Inacio Accioli, sob o com­promisso de escrever o velho historiador uma historia geral do Brasil, desde 1821. Em cumprimento ao compromisso assumido, “fazendo das fraquezas forças, escreve Hipolito Cassiano de Miranda, e auxiliado pelo referido dr. Melo Morais, escreveu e entregou a S. M. o ex-Imperador dois tomos da mencionada historia, a qual, apesar de incompleta, encerra dados aproveita­veis sobre o periodo de 1840 a 1855, contudo faltos de método e co­ordenação”.

Em 1.º de Agosto de 1865 faleceu Inacio Accíoli no Rio de Janeiro, reduzido á mais extrema pobreza.

O velho Accioli era um fervorosó espirito de indagação e um cuidadoso pesquisador do passado. O dr. J. A. de Melo Mo­rais (Pai), com quem viveu Accioli os seus ultimos anos, apro­veitou conscienciosamente o valioso acervo de notas e documen­tos que possuía o velho historiador, salvando assim de uma perda irreparavel o fruto de longos anos de pesquisas e trabalhos.

São as seguintes as principais obras publicadas por Inacio Accioli:

Corografia paraense, ou descrição física, historica e politica da provincia do Gram Pará. Baía — Tip. do Diario — 1833 — 348 pgs. in 8.°.

Memorias historicas e políticas da Província da Baía — Baía — Tip. do Correio Mercantil — 1.° tomo — 1835; 2.° tomo — 1836; 3.° tomo — 1836; 4.° tomo — 1837 — 5.° tomo — 1843 — 6° tomo — Tip. de Carlos Poggetti — 1852.

Ha uma 2° edição da Baía — 1892, organisada por Hipoli­to Cassiano de Miranda e uma 3.° edição, tambem da Baía — 1919, organisada pelo Dr. Braz do Amaral, porodem do gover­no do Estado.

Restauração da cidade do Salvador da Baía de Todos 0s Santos, na província do Brasil, pejos anos de D. Felipe IV. Es­crita e publicada por O. Tomaz Tamaio de Vargas – Madrid _ 1628. Traduzida do espanhol e adicionada com muitas notas e uma carta topografica, etc. – Baía – Tip. de E. J. Pedrosa _ 1847 – 296 pgs. in 4.°.

Inconstituição ou descrição topografica e politica do rio São Francisco, escrita em virtude de Ordens Imperiais, e apresen­tada ao governo provincial da Baía — Baía — 1847 — 161 pgs. in 8.°. Ha uma 2.ª edição do Rio de Janeiro — 1860 — 140 pgs. in 8.°. A 1.ª edição é raríssima.

Ensaio Corográfico do Imperio do Brasil — Rio de Janeiro — 1853 — 354 pgs. in 8.°. Esta Obra foi escrita em colaboração com o Dr. Melo Morais (Pai).

Memorias diarias da guerra do Brasil, por espaço de nove anos, começando em 1630 — Rio de Janeiro — 1855 — Tip. de M. Barreto — 172 pgs. in 4.°. Escrita em colaboração com o Dr. Melo Morais (Pai).

Dissertação historica, etnografica e politica sobre as tribos aborigenes que habitavam a provincia da Baía, etc. — Baía — ­Tip.de João Alves Portela e C. — 1848.

Esta obra foi transcrita na Revista do Instituto Historico — Tomo XI — 1849 —  pgs. 143 a 257.

Na Revista Trimensal do Instituto Historico escreveu as biografias do brigadeiro José Eloi Pessôa (T. IV — pgs. 91-95), do Padre Francisco Agostinho Gomes (T. IV — Sup.° pg. 28- 35), do Dr. José de Sá Bittencourt Accioli (T. VI. 1844), de Manoel da Nobrega (T. VII — pgs. 406-414) e de José de An­chieta (T. VII — pgs. 551-57).

Deixou inedito um Ensaio historico sobre o Imperio do Brasil, cujos originais Hipolito de Miranda dizia acharem-se em po­der do dr. Melo Morais Filho.

Colaborou Accioli em diversos jornais e revistas, onde pu­blicou grande numero de obras originais e traduzidas, especial­mente no Mercantil (1844-45), no Cabalista (1844-45), no Cre­púsculo (1845-47), da Baía e no Guaraní, (1853) do Rio de Ja­neiro.

Vemos que é grande e copiosa a obra historica de Inacio Accioli, a cujo honesto e paciente trabalho muito deve a nossa literatura historica. Foi ainda um estudioso da nossa geografia e ela nossa etnografia, muito embora os seus trabalhos não tenham Um cunho verdadeiramente científico.

A sua obra capital é sem duvida as Memorias historicas, á qual o autor consagrou grande parte de sua vida, e representa um formidavel trabalho de investigações. Ali estão reunidos do­cumentos preciosos para a historia elos governos gerais do Bra­sil, para a história da guerra holandêsa e da independencia. O livro é todo escrito em linguagem simples, despretenciosa, em­bora um pouco descuidada.

Vejamos como o velho historiador nos conta o episodio len­dario de Caramurú e a fundação da Baía.

“Diogo Alvares Correia, pessôa nobre da vila de Viana do Minha, saiu de Portugal, segundo as melhores noticias, em um navio destinado a ver novas terras, e tendo padecido violenta pro­cela, veio dar justo á barra da Baía, nos parceis, que então se conheciam por baixos de Mairaguiguiig, nome de uma tribu indi­gena, naufragando ali com todos os seus companheiros de via­gem, facto este que se supõe teve lugar em 1510.

Os que escaparam daquele naufragio foram vítimas da ferocidade dos Tupinambás, os quais, contudo, pouparam a Diogo Alvares, pela constancia com que o viam ajuda-lo a recolher al­guns efeitos do navio, arrojados ás praias pelo mar, e entre os salvados teve o mesmo Diogo a prudencia de acautelar algum barris de polvora e bala, e uma espingarda, com a qual, dispa­rando o tiro sobre um passaro, que fez caír morto, ,causou tama­nho terror aos indios, que reputando-o logo por homem extraordinario e terrivel, o denominaram desde então Caramurú (ho­mem de fogo), presumindo que ele os mataria, como fizera ao passaro.

Diogo, contudo, aproveitando-se daquele assombro, persuadia aos mesmos indios de que ele, bem longe de ofende-los, lhes se­ria de vigoroso auxilio nas guerras contra os seus inimigos, e que o seu fogo apenas era prejudicial aos que lhe fossem contrarias, contudo não aos amigos; com estas e outras razões, ditadas pelas circunstancias, conseguiu ganhar a confiança dos naturais, que, ainda dominados do primeiro pasmo, nem ao menos ousaram to­car na espingarda, e como estivessem em guerra com os que ha­bitavam nessa época o sitio de Passé e suas imediações, acom­panhou-os na sortida que fizeram contra estes índios, os quais, conscios desse auxilio, cederam o campo, fugindo aterrados, sem entrarem em combate. Esta facil historia deu maior importancia a Diogo, que atraía cada vez mais o respeito dos Tupinambás, apresentando-se-lhes como homem extraordinario, mediante fo­gos artificiais que ocultamente fazia.

Foi por meio de tais estratagemas que ele, do terrivel estado de naufragado, passou a constituir-se chefe de muitas familias indigenas, que lhe tributavam respeitosa obediencia, e resolvido a formar um estabelecimento mais solido, deu principio á sua povoação que denominou de São Salvador, em alusão ao facto do seu naufragio, povoação aquela fundada no sitio da Graça, pouco distante da praça onde ora existe a igreja paroquial de Nossa Senhora da Vitória, e cujo lugar ainda hoje é conhecido por Vila Velha, posto que o tempo já vai pondo em esquecimento essa denominação.

Diogo Alvares fez levantar novas casas na sua povoação, substituindo-as ás primitivas cabanas; instituiu uma forma de policia adaptada ás circunstancias e aos costumes dos indígenas, e dos fragmentos do seu navio, que déra á costa, construiu pe­quenos barcos, em os quais pretendia visitar o golfo, suspeitando desde o seu naufragio que se achava no Brasil: tinha já adquirido inteiro conhecimento do idioma dos Tupinambás, e qual seu patriarca, era ele o arbitro de todas as contendas, que se sucita­vam entre os indios visinhos, bastando o seu nome para reprimir as tentativas das tribus mais exaltadas, que tentavam perturbar a paz do seu estabelecimento, ao mesmo passo em que fazia ter­rível destruição áqueles que mais ousados desprezavam, ou ti­nham em menos conta a consideração de que gosava na sua povoação e circunvisinhanças”.

A Corografia Paraense e a Inconstituição são duas obras dê real merecimento, e ambas o produto de uma honesta e cuidadosa elaboração. A ultima foi escrita em poucos dias, para satisfazer a uma constatação pedida pelo então presidente da provincia da Baía, o conselheiro Antonio Inacio de Azevedo, ácerca do rio São Francisco. O grande conhecimento que tinha Inácio Accioli da região do S. Francisco, onde vivera cerca de quatro anos, ha­bilitou-o a dar pronta e cabal resposta aos quesitos que lhe foram formulados pelo governo da província.

A sua Dissertação historica, etnografica e política é tambem um curioso trabalho de investigação sobre os indigenas que pri­mitivamente habitavam o território baiano. “É naquele genero semi-científico — escreve Silvio Romero —  a que pertencem diversos estudos brasileiros sobre o assunto e entre outros a ce­lebrada memoria de Gonçalves Dias — o Brasil e a Oceania”.

Inacio Accioli não tendo nascido no Brasil, foi consoante escreveu Joaquim Manoel de Macedo, “brasileiro pela infan­cia, pela educação, pelos costumes, pelo amor, ainda antes de se-lo pela nacionalidade independente”. Assim tambem o julga­mos, e por isso, o incluimos entre os obreiros que prepararam o nosso Romantismo.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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