Nasceu José da Natividade Saldanha em Santo Amaro do Jaboatão, na provincia de Pernambuco, aos 8 de Setembro de 1795, sendo filho do vigário João José Saldanha Marinho e da parda Lourença da Cruz. Fez os seus primeiros estudos no Seminario de Olinda com a intenção de seguir a carreira ecle­siastica, Mais tarde, desistindo de receber ordens partiu para Coimbra, onde se matriculou na Universidade em 1819, tendo a 2 de Julho de 1823 recebido a laurea de bacharel em direito.

O seu talento poetico cedo se manifestou, pois ainda cur­sava a Universidade quando, em 1822, publicou o seu livro de Poesias oferecidas aos amigos amantes do Brasil – Coimbra – 1822.

Concluído o seu curso academico, regressou Natividade Sal­danha para o Brasil, tendo sido nomeado auditor de guerra em Pernambuco, cargo que recusou para exercer livremente a advo­cacia em Recife.

A 13 de Dezembrode 1823 foi eleito membro da junta go­vernativa, em cujo exercicio o colheu a revolução de 24, na qual se comprometeu seriamente. Vencida a revolução Saldanha fu­giu para os Estados Unidos, passando-se logo para a França, onde chegou em Janeiro de 1825.

Perseguido pela policia francêsa, que chegou a fazer apre­ensão de sua bagagem e seu arquivo particular, decidiu-se o poe­ta pernambucano a passar-se para a Inglaterra, onde já se acha­va refugiado Manoel de Carvalho Pais de Andrade. Dificulda­des de vida obrigaram-no a buscar novamente a Arnerica, ten­do partido para Venezuela, onde obteve em 1826, licença para advogar, segundo ele conta a sua irmã, em carta que escreveu de Caracas, a 24 de Agosto de 1826.

“Já me concederam licença para advogar, fazendo exame; contudo, tenho estado muito doente, e por isto não me tenho exa­minado. Cada vez tenho menos meio de passar, e vendi já um relogio que aqui tinha comprado, e até camisas, porque com a minha molestia não tenho podido trabalhar”.

Durante a sua ausencia, a Alçada que funcionava em Per­nambuco condenou-o á morte, tendo Saldanha, ao ter noticia da sentença condenativa que o tratava de Mulato Saldanha, escrito ao dr. Manoel Pedro de Morais Maier, Juiz que a lavrou, uma carta, que é um belo documento de nobreza e altivez.

Em Caracas, recebeu Natividade Saldanha a protecção e amizade do general Abreu e Lima, que tambem aí se achava e­fugiado. Em Bogotá foi o poeta pernambucano professor de humanidades e advogado, entregando-se, então, com demasia0 vicio da embriaguez.

Segundo uns apontamentos de Abreu e Lima, citados por Pereira da Costa, faleceu Natividade Saldanha em Bogotá, a 30 de Março de 1930, caíndo certa noite de chuva em uma vala, onde pereceu afogado.

Outra versão sustentada por Manoel de Carvalho Pais de Andrade e José de Barros Falcão de Lacerda, dá Saldanha como desapareciào de Bogotá, no dia de uma defeza que deveria fazer no tribunal daquela cidade, sem que jamais, depois deste dia, se tivessem noticias de sua pessôa.

“Seja contudo esse ou aquele o fim do desventurado poeta, — escreve Pereira da Costa, — sempre guiado pela estrela da infeli­cidade, á sua morte perdeu Pernambuco um dos seus mais ilus­tres filhos, o inspirado cantor das suas glorias e dos seus heróis”.

A vida curta e atribulada de Natividade Saldanha, não per­mitiu que este mestiço inteligente e estudioso, nos deixasse o que de seu talento poderiamos esperar. Foi uma das brilhantes inte­teligencias inutilisadas pela vesania separatista de 24 em Pernambuco. Consoante já escrevemos ao estudar a individuali­dade de Frei Caneca, condenamos integralmente a tentativa de fragmentação nacional, partida dos revolucionarias de 1817, 24, 35 e 48. Levados por ambições regionais ou utopias demagogicas, estes herois da Sedição e da Desordem, devem despir a tunica de heroismo com que ha um seculo se vêem indevidamente  co­brindo. Trefegos agitadores, cercaram-se  de uma celebridade que não conseguiram senão pela enormidade do atentado que premeditaram e buscaram efectivar. O nosso lirismo rornanti­co, pasmado diante da fôrca que matou alguns destes herois da Rebelião, passou, sem mais exame, ás gerações seguintes, o cul­to descabido que prestou aos beatificados da seccessão da Patria.

A falange de brasileiros ilustres que se deixaram envolver pela fatalidade de tais acontecimentos, ainda espera um exame do papel que representaram nos quatro grandes atentados come­tidos contra a nossa integridade, para que assim possamos absol­ve-los ou condena-los, sem preconceitos nem sentimentalismos, dos pecados que lhes são imputados.

“Não o esqueçamos, escreve Alberto Rangel, farrapos ou praieiros, são todos de sul a norte os graves pecadores dos disturbios, ensanguentados em que se maquinava o despedaçamen­to da Patria.

Neste numero estão os Frei Caneca, os Natividade Saldanha, os Abreu e Lima, os Pais de Andrade, os Bento Gonçalves, os Pedro Ivo e quantos outros …

Publicou José da Natividade Saldanha apenas dois livros de poesias, tendo deixado diversos trabalhos ineditos, citados por Sacramento Blake e Pereira da Costa.

Poesias oferecidas aos amigos amantes da Brasil — Coimbra — 1822 — 136 pgs. in 8.° .

Poesias de José da Natividade Saldanha, colecionadas, anotadas e precedidas de um estudo historico por José Augusto Fer­reira da Costa — Lisbôa — 1875 — 319 pgs. in 8.°.

Em carta escrita pelo poeta á sua irmã, em Liverpool, aos 28 de Março de 1825, ha referencia ás seguintes obras ineditas:

Poesias variadas — 2 vols.

Guerra de Pernambuco — 2 vols.

Noticias dos limites do Brasil — 1 vol.

Cantata a D. Ignez de Castro.

Alberto Rangel transcrevendo o termo de apreensão dos papeis pertencentes a Natividade Saldanha, feito pela policia fran­cêsa em Paris, refere-se ás traduções e obras originais seguin­tes, provavelmente perdidas com a morte do poeta:

Alguns capitulos de suas Memorias.

Diversas poesias avulsas.

Ensaio sobre uma epopeia de Voltaire.

Elieser e Nephtali de Florian.

Ensaio sobre o meio de gerar filhos inteligentes, de Lavater.

Discurso pronunciado por M. Racine, por ocasião de sua recepção na Academia francêsa.

Extracto do tratado de Luciano, sobre a maneira de escrever a historia.

Ensaio de um poema épico, intitulado Joaneida, relativo á expulsão dos holandêses do norte do Brasil.

Um pequeno poema impresso em Lisbôa, do qual não co­nhecemos outra referencia.

Estes documentos foram devolvidos ao poeta no dia 9 de Fevereiro de 1825, segundo consta do proprio termo de apre­ensão.

“A perda resultante dessa honesta devolução — escreve Al­berto Rangel — é a Posteridade que a deplora. Um envolucro selado de negro e roto ao meio, e que ainda assim se conserva nos Archives Nationales de Paris, tem um quê de esquife pro­fanado e vasio das joias que o deviam conter”.

Decididamente a má estrela do poeta foi incansavel em per­segui-lo nos curtos trinta e seis anos de sua existencia.

A nossa poesia patriotica teve, antes do Romantismo, o seu mais ilustre cultor em Natividade Saldanha. A nota lirica escas­seia nas poesias do pernambucano que, antes de mais nada, era um classico convicto. Tendo estado na França e na Inglaterra, quando ali se processava o Romantismo, nada aproveitou dos ensinamentos dos corifeus da nova escola, continuando a escre­ver os seus versos como sempre o fizera, e mostrando-se intei­ramente alheio á revolução renovadora que invadira a Europa.

Silvio Romero encontrou nos versos de Natividade Salda­nha “a turbulencia sensualista do mestiço”, que, francamente, não conseguimos entrever. No lirismo de José Bonifacío, muito mais acentuada é esta tendencia, sem que todavia pesasse no sangue do velho Andrada a contribuição do factor africano…

Entretanto, não ha negar que o poeta do Recife, era sincero e patriota, posto que tivesse do patriotismo uma compreensão muito acanhada. Foi um dos mais nítidos precursores da poesia patriótica da terceira geração romantica que, cincoenta anos mais tarde, teria os seus mais ilustres representantes na capital per­nambucana.

Quando enveredava pelo, lirismo, era Natividade Saldanha triste e melancólico. Sentimos que lhe pesavam as suas condi­ções de mulato e filho espúrio, que não poucas vezes lhe foram atiradas á face. No exilio, mais de uma vez a sua côr e a sua origem foram para ele motivos de profundos dissabores.

Daí esta nota de melancolia e desalento que sempre envolve as suas composições líricas:

“Noite, noite sombria, cujo manto

Rouba aos olhos mortais a luz febeia,

E em cuja escuridão medonha e feia

Magua inspira do môcho o triste canto;

Tu avêssa ao prazer, sacia do pranto,

Que rompe do mortal a fragil teia,

Consola um infeliz que amor anseia,

E a quem a magua é prazer, pezar encanto.

Vem, compassiva noite, e com ternura,

Recolhe os ais de uma alma que suspira,

OPrimida de angustia, e desventura.

Recebe os ais de um triste que delira;

De um triste, que embrenhado na espessura

Suspirando saudoso, arqueja, expira … “

Grande amigo de seu torrão natal, não se cansou Nativida­de Saldanha de louvar-lhe as glorias e os herois. Na sua cole­ção de poesias patrioticas abundam os hinos de louvor ao he­roismo dos pernambucanos, sendo mais notaveis os que dedicou a Vidal de Negreiros, Camarão, Henrique Dias, Francisco Ra­belo e o seu celebre soneto aos revolucionarios de 1817.

Dos tres primeiros disse o poeta:

“E contudo conheça o mundo todo,

Que entre o remoto povo brasileiro

Tambem se criam peitos mais que humanos,

Que não invejam Gregos nem Romanos”.

Na sua belissima Ode a Francisco Rabelo, o heroi da insur­reição pernambucana, escreve Saldanha, vibrante de entusiasmo patriótico:

“Ó jovens brasileiros,

Descendentes de heróis, heróis vós mesmos,

Pois a raça de heróis não degenera,

Eis o vosso modelo;

O valor paternal em vós reviva;

A patria que habitais comprou seu sangue

Que em vossas veias pulsa;

Imitai-os, porque eles do sepulcro

Vos chamem com prazer seus caros filhos.

Assim em Roma o brio dos Horacios

Nos recem nados filhos vegetava;

Assim o egregio sangue

Em Termopilas dura derramado

Antolhava em seus filhos vingadores;

Tomei deles o brio, a força, a manha;

Sêde sempre fieis á patria cara;

Vós sereis brasileiros;

Sereis pernambucanos verdadeiros”.

No soneto aos heróis de 1817, repetindo quasi os mesmos motivos, Saldanha concita os seus patricios a imitarem o herois­mo e os feitos dos seus antepassados. Nesta poesia, o pernam­bucano é mais do que nunca sincero e eloquente :

“Filhos da patria, jovens brasileiros,

Que as bandeiras seguís do marcio nume,

Lembrem-nos Guararapes e esse cúme,

Onde brilharam Dias e Negreiros.

Lembrem-vos esses golpes tão certeiros,

Que ás mais cultas nações deram ciúmes;

Seu exemplo segui, segui seu lume,

Filhos da patria, jovens brasileiros.

Esses que alvejam campos, níveos ossos,

Dando a vida por vós constante e forte,

Inda se prezam de chamar-se nossos;

Ao fiel cidadão prospéra a sorte:

Sejam iguais aos seus feitos os vossos,

Imitai vossos pais até na morte.”

No periodo que estudamos, foi Natividade Saldanha o mais ilustre cultor da poesia. É muito superior a Frei Caneca, a José Bonifacio, a Paranaguá e a Pedra Branca. É mais emotivo, mais sincero, mais eloquente que qualquer deles, e teve ainda a virtu­de de evitar a influência do rançoso arcadismo lusitano, mesmo quando poetou em Coimbra, entre os anos de 1819 e 23.

Natividade Saldanha foi um espírito liberal, entusiasmo, idealista, activo e inteligente. Expatriado e perseguido quando mal saía da adolescencia, não o deixou mais a má estrela que desde o berço o marcara com “um doloroso estigma, causa dos seus maiores desgostos e padecimentos.

Foi uma vítima dos preconceitos do seu tempo e das suas quiméras democraticas, abafadas na secura escarninha da sen­tença com que o Juiz Morais Maier, lembrando-lhe a sua origem africana, mandava-o para o patibulo.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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