Manoel Inacio da Silva Alvarenga é o ultimo representante do grupo mineiro, na ordem do tempo, e neste grupo representa a transição entre os ultimas arcades e os primeiros romanticos. É uma figura notavel em nossa literatura. Sendo o mais eman­cipado dos vicios da época, foi o que mais se afastou dos esgo­tados modelos classicos, e aquele que, com mais propriedade, empregou nos fins do seculo XVIII os processos poeticos que mais tarde caracterisariam o Romantismo.

Cultivou o verso solto e o alexandrino de treze sílabas com relativa perfeição. A sua poesia, algumas vezes irreverente e desabusada, outras, intima e pessoal, diferencia-o dos seus com­panheiros de grupo. “É poeta mais objectivo, mais voltado para o real, para a vida, para o mundo que os outros. O seu pensa­mento é mais humano, “mais livre, mais liberal”, escreve José Veríssimo.

Silva Alvarenga era mestiço e bastardo. Filho ilegitimo de Inacio da Silva Alvarenga, nasceu em Vila Rica em 1749. No seu interrogatorio de 4 de Julho de 1795, diz ser filho de Inacio da Silva, com 46 anos de idade. O Conego Januario da Cunha Barbosa afirma que seu pai não adotava o sobrenome de Alva­renga, em contradição com o assentamento encontrado na Uni­versidade de Coimbra por João Francisco Lisbôa, onde o poeta se matriculara como filho de Inacio da Silva Alvarenga, nasci­do em Vila Rica.

Pereira da Silva, no Plutarco brasileiro, dá Silva Alvarenga como nascido em S. João del Rei, em 1758.

Januario da Cunha Barbosa considerava Alvarenga nasci­do em S. João del Rei em 1734, dando-o como falecido em 1.° de Novembro de 1814, aos 80 anos de idade. Estas opiniões estão em patente desacôrdo com as suas declarações no interro­gatorio de 4 de Julho de 1795, e com as pesquizas feitas por Joaquim Norberto.

Fernandes Pinheiro, na 1.” edição do seu Curso de Literatura Nacional, repete os erros do Conego Januário e Pereira da Silva, dando tambem Silva Alvarenga como nascido em S. João del Rei, em 1758.

Mais tarde, na 2.ª edição da mesma obra, corrige a data, recuando-a para 1749, e adotando Vila Rica para berço do poeta.

lnocencio Silva não necessita a data do nascimento de Alvarenga, declarando que parece ter sido entre os anos de 1735 e 1740 ou 1758.

Toda essa confusão de datas é devida ao Conego Januario, sendo estranhavel que errasse tão grosseiramente quem manten­do as mais intimas relações com o poeta, era, além disso, seu discipulo e grande admirador.

O pai de Silva Alvarenga era musico em Vila Rica, vivendo em estado de pobreza, o que aliás o não privou de aproveitar o talento do seu ilustre filho. Não consentindo que o jovem se­guisse a sua profissão, reservou-o, assim, para um destino mais alto.

Amigos seus concordaram em auxilial-o, e o jovem Alva­renga foi mandado para o Rio de Janeiro estudar preparatorios que o habilitassem á matricula da Universidade de Coimbra.

Em 1771, com 22 anos de idade, seguiu para Portugal onde se matriculou na Faculdade de Canones, recebendo o gráu de bacharel em 1775 ou 1776. Na época em que o poeta mineiro cursava a Universidade, o Marquês de Pombal fizera a celebre reforma de 1772, acabando de um golpe com a desmoralisação e a indisciplina que lavrava naquele instituto.

Silva Alvarenga aproveitando a oportunidade que se lhe apresentava, saudou a mocidade portuguêsa em entusiasta ode que muito impressionou Pombal. Apresentado ao Marquês re­cebeu do mesmo o melhor acolhimento, o que o animou a prose­guir na politica que já anteriormente adotára com sucesso o seu amigo Basilio da Gama.

O poema heroi-comico o Desertor das letras, escrito em linguagem que muito deveria ter agradado a Pombal, teve a hon­ra de ser impresso ás expensas do Ministro de D. José I.

As suas qualidades de protegido de Pombal e amigo intimo de José Basilio da Gama, então Oficial da Secretaria do Reino, facultaram-lhe largo circulo de amizades em Lisbôa, onde resol­veu exercer a sua profissão de advogado.

Em 1775, por ocasião da inauguração da estatua equestre de D. José I, versejou juntamente com os poetas brasileiros que no momento se achavam em Portugal. Escreveu, ainda, uma epistola ao rei D. José I, sobre o mesmo têma.

Em 1777 resolve o poeta deixar Lisbôa, embarcando para o Rio de Janeiro. Estranhamos que Alvarenga, sem familia no Brasil, resolvesse abandonar a Metropole, onde um futuro melhor do que na Colonia lhe seria assegurado pela protecção do Marquês de Pombal. Só mesmo a nostalgia da terra natal pode­ria ter influido poderosamente em seu temperamento de mestiço. Ele o confirma, em sua despedida a Basilio da Gama:

“Amor, o puro amor do patrio ninho

Ha muito que me acena, e roga ao fado

Que eu sulque o campo azul do deus marinho.”

e adiante:

“Se enfim respiro os puros climas nossos,

No teu seio fecundo, ó patria amada,

Em paz descansem os meus frios ossos.”

Chegando no mesmo ano ao Rio de Janeiro, aí se fixou, não procurando como os seus compatriotas mineiros instalar-se em Vila Rica.

Possuidor de um temperamento alegre e prazenteiro, um tanto ironico na conversação, era Silva Alvarenga de “alta esta­tura, compleição forte e repleto sem ser obeso; seu semblante tinha alguma causa de carregado, a que dava ainda mais gravi­dade a sua côr parda; e a voz resentia-se do sotaque brasileiro por nimiamente pausada”.

Era ilustrado, conhecendo perfeitamente o latim, o grego, e as linguas inglêsa, francêsa, italiana e espanhola. Era mate­mático, musico, e foi professor de retórica e poética. Como ad­vogado foi considerado um dos melhores de seu tempo, estudioso e erudito; possuia magnífica biblioteca, que depois de sua mor­te foi adjudicada á Casa Real, consoante afirma Adriano Balbi.

Na Revista do Instituto Historico, Cunha Barbosa diz ter Silva Alvarenga recebido a patente de coronel de milicias dos homens pardos, da sua comarca do Rio das Mortes. J. Nor­berto contesta esta afirmação, e pondera que, possivelmente, o Conego Janua rio atribuiu a Silva Alvarenga a patente que fôra concedida a Alvarenga Peixoto, pela semelhança dos apelidos. Além disso, não era costume dar-se a homens de côr o comando das milícias, mesmo quando tais corpos eram estabelecidos de ele­mentos crioulos e mestiços.

Governava o Estado do Brasil, ao chegar Silva Alvarenga ao Rio de Janeiro, o Marquês de Lavradio, um dos mais ope­rosos vice-reis enviados pela Metropole. Espirito tolerante, ilus­trado, “amigo dos sabios, dos literatos e dos poetas “, na frase de Norberto, foi um grande protector das inteligencias cultas, que já abundavam no Rio colonial.

Assim, patrocinou o ilustre marquês, a fundação de uma sociedade científica, com séde no Rio de Janeiro, afim de fo­mentar a prosperidade do país, com a coadjuvação de patriotas ilustres e operosos. O relatorio do Marquês de Lavradio, inser­to no tomo IV da Revista do Instituto Historico, dá-nos conhecimento de quanto foi produtiva a acção daquela sociedade.

Animava ainda o marquês o culto á poesia e ao teatro, que, sob seus auspicios, se desenvolvia com a cooperação dos mais ilustres escritores da época.

Infelizmente, a 5 de Abril de 1779 deixou Lavradio o go­verno da Colonia, passando-o a D. Luis de Vasconcelos e Souza.

Com a retirada de Lavradio, extinguiu-se a sociedade da qual Silva Alvarenga fôra um dos membros mais activos e entu­siastas.

Aproximou-se o poeta mineiro do novo vice-rei, certo que encontraria nele a protecção que tão prodigamente lhe dispensára o seu antecessor. Prestou D. Luis de Vasconcelos, o mais largo auxilio a Silva Alvarenga, nomeando-o professor regio de retórica e poética, patrocinando a fundação da Sociedade Lite­raria, que deveria substituir a Sociedade Científica do Rio de janeiro.

Aquela, fundada em 1786, teve como secretario Silva Alva­renga, e dela faziam parte medicos, advogados, padres e letra­dos, entre os quais Mariano José Pereira da Fonseca, depois Marquês de Maricá, João Marques Pinto, Dr. Jacinto José da Silva e outros.

“A mal conhecida existencia destas duas associações lite­rarias fundadas por Alvarenga, deu aso ás hipoteses e imagina­ções que têm aliás corrido como certezas, de uma Arcadia UI­tramarina, criada por ele com o concurso de Basilio da Gama, o qual contudo estava em Portugal, donde nunca mais saiu”.

Consoante já vimos no inicio do presente capitulo, a Arca­dia Ultramarina, que jamais teve existencia real e concreta, não deve ser confundida com as associações fundadas por Silva Al­varenga nos governos do Marquês de Lavradio, de D. Luis de Vasconcelos e Souza e do Conde de Rezende.

Como Claudio, Alvarenga Peixoto e Gonzaga, tambem usou Silva Alvarenga do criptónimo pastoril de Alcindo Palmireno, sem que isso implicasse qualquer inclusão do seu nome nas ar­cadias portuguêsas ou na Arcadia de Roma.

D. Luis de Vasconcelos, depois de ter oferecido grandes Ser­viços á cidade do Rio de Janeiro, deixou o governo da Colonia, passando-o ao Conde de Rezende, a 4 de Junho de 1790.

A má fama que trazia o Conde de Rezende e os recentes sucessos da inconfidencia mineira, fizeram os membros da So­ciedade Literaria separarem-se, dissolvendo-a tacitamente.

Silva Alvarenga, por essa época já imbuido dos principios filosoficos que começavam a agitar a Europa, ávido sempre de novas leituras e conhecimentos novos, não desanimou de con­gregar seus “amigos e compatriotas, afim de lhes transmitir os seus conhecimentos políticos e literarios, e animar a propaganda das ideias filosoficas dos enciclopedistas.

Neste proposito procurou o Conde de Rezende, e obteve o seu consentimento para a fundação de uma nova sociedade cien­tífica e literaria. Pela terceira vez conseguia Alvarenga congre­gar seus amigos, reunindo-os no primeiro andar de uma casa da rua do Cano, onde instalou um museu de historia natural e a sua rica livraria.

As sessões da nova sociedade eram frequentadas pela élite Intelectual do Rio, e a mocidade que já recebia ensinamentos do professor de retórica, abraçou com entusiasmo as novas ideias.

A ignorancia de uns e a maledicencia de outros, logo assoa­lhou pela cidade que na casa da rua do Cano se reuniam os lite­ratos para cuidar de assuntos politicos e religiosos, em sessões secretas, e cognominaram de club de jacobinos a novel assembleia.

Examinando os estatutos da associação, o Conde de Rezende bem depressa se convenceu de que a assiduidade de seus membros tinha outros atractivos que não os meros estudos lite­rarios, e para se certificar desta suspeita, encontrou em José Bernardo da Silveira Frade um novo Joaquim Silverio.

Certo Frei Raimundo, franciscano, tornara-se um dos mais acérrimos inimigos da sociedade da rua do Cano, e um dos mais ardorosos propagandistas, de que “na casa do poeta, se celebra­vam conferencias clandestinas, nas quais se tratava da religião com menosprezo e se aplaudiam os triunfos da democracia”.

Em revide, Silva Alvarenga atirou sobre o franciscano um cento de sonetos satíricos, que popularisaram o frade, cobrindo-o de ridiculo.

Preparou Frei Raimundo sua vingança, aliás bem pouco cristã, e procurou o meio de exerce-la com eficacia. Este apare­ceu-lhe na pessôa do rabula Silveira Frade, conhecido intrigan­te, fautor de demandas e muito familiarisado em casa de Alvarenga.

De conluio com o nefando franciscano, preparou Silveira Frade a delação, que entregou ao Conde de Rezende. Exultou o régulo com a oportunidade de se mostrar vassalo zeloso e cioso defensor dos direitos da Metropole.

Em Dezembro de 1794 foram presos e carregados de ferros: — Manoel lnacio da Silva Alvarenga, José Mariano Pe­reira da Fonseca, o professor José Marques Pinto, o Dr. Jacin­to José da Silva e outros, sendo todos, sem culpa formada, atirados nas masmorras da fortaleza de Santo Antonio, como réus de inconfidencia. Atraz, o fisco, com o mandado de sequestro, arrecadou para a Real Fazenda, moveis, livros, papeis e todos os bens dos inconfidentes.

Provas não n’as procurou Rezende para fundamentar a denuncia; era preciso reeditar o drama da inconfidencia e apro­veitar o juiz Diniz da Cruz e Silva, o insípido autor do Hyssope, veterano em condenações de réus de lesa-magestade, esse torvo Diniz da Cruz e Silva, “cuja passagem pelo Brasil, foi um rasto de sangue e de miserias”, na feliz expressão do Sr. Ronald de Carvalho.

De 4 de Julho a 14 de Setembro de 1795, foi Silva Alvarenga interrogado nove vezes! Pretendia a justiça real enreda-lo, por todos os meios, insistindo em que o réu confessasse que em sua casa, com os seus amigos, se tratava sobre materias de polí­tica e religião com liberdade de linguagem, e tambem se louvavam os sucessos da Europa e o sistema republicano. O poeta negou sempre, e com firmeza, a veracidade destas afirmações.

Acusado de possuir livros revolucionarios e gazetas dos países onde lavrava a revolução democratica, ou em que já se sentiam os seus efeitos, e que se encontraram no sequestro de seus bens, declarou o réu que possuia livros que tratavam ex­clusivamente de matemáticas, e que das gazetas só se aproveitava dos despachos e das noticias sobre novas edições.

Neste diapasão continuou o torvo Diniz a apertar o circulo de perguntas e insinuações, com o visível intuito de perder o réu.

José Antonio de Almeida, discipulo de retórica de Alvaren­ga, viu-se enredado no processo em virtude de um discurso que proferira em um dia de Outubro de 1794, e que foi apenso á  devassa. Este discurso, contrario aos principios monarquicos e á sociedade colonial, na avaliação dos juizes, serviu de grave acusa­ção a Alvarenga, acoimado de responsável pelas doutrinas sub­versivas que incutia no animo de seus discipulos.

Finalmente, depois de nove interrogatórios, ratificações e acareações, foi Silva Alvarenga esquecido nos carceres da Con­ceição, pelo espaço de dois anos e sete meses, até que se mani­festasse a clemencia, sempre tardia, de D. Maria I. Em fins de 1797 foi posto em liberdade e reintegrado em parte dos seus bens sequestrados.

Depois de sua prisão ainda colaborou no Patriota, a revista literaria que tão importante papel representou nos ultimos dias do Brasil colonial. Não figura o seu nome entre os colaborado­res de 1814, por já haver, provavelmente, cessado neste ano toda a sua actividade literaria.

Chegado á velhice perdera o poeta o genio folgazão, sempre pronto á ironia e á facecia, tornando-se então de caracter melancolico, triste e taciturno, arrastando uma vida incolor e apagada, até que a morte o colheu na tarde de 1.° de Novembro de 1814, aos 65 anos de idade.

A obra literaria de Silva Alvarenga foi reunida pelo incan­savel Joaquim Norberto, em dois volumes, sob o titulo de Obras Poeticas de Manoel Inacio da Silva Alvarenga (Alcindo Palmi­reno), coligidas e anotadas, e acompanhadas de documentos his­toricos, por J. Norberto de Souza e Silva — Rio de Janeiro ­B. L. Garnier — 1864.

Consta esta colecção de uma poesia em quintilhas, duas canções, quatro odes, dois idilios, duas epistolas, uma heroide, uma sátira, uma edoga, um poema didatico, um poema heroi-comico, um soneto, sessenta e nove rondós e cincoenta e sete madrigais.

Destas composições, teve edição em separado o poema herói­comico O Desertor, impresso na Real Oficina da Universidade de Coimbra, em 1774 — in 8.° com 71 pgs. Saíu posteriormente uma segunda edição, sem data e designação de impressão.

O poema didático As Artes, foi publicado pela, primeira vez, na Colecção de poesias ineditas dos melhores autores portu­guêses (VoI. II — pg. 88), e depois na revista literaria O Pa­triota, e no Mosaico Poetico de J. Norberto e Emilio Adet.

O Templo de Neptuno, idilio dedicado a Basilio da Gama, teve publicação separada, em Lisbôa — 1777 — Of. Regia — in 4.° com 7 pgs.

A Epístola ao rei Do José I, foi publicada em Lisbôa — 1775 — Of. Regia — folheto com 6 pgs.

A Ode a D. José I, foi publicada sem ano e lugar de im­pressão, em folheto de 6 pgs. Segundo Inocencio Silva, a im­pressão fez-se em Lisbôa, em 1775. Esta ode foi depois publi­cada no Patriota, com varias emendas e modificações feitas pelo autor.

A Apoteosis ao vice-rei D. Luis de Vasconcelos e Souza, teve impressão avulsa em Lisbôa — 1775 — in 4.°. Foi mais tarde reproduzida no Patriota.

O poema Glaura, saiu a lume em Lisbôa em 1801, em um volume in-8.°, dividido em duas partes, e contendo em prologo, sessenta e nove rondós e cincoenta e sete madrigais.

A restante obra de Silva Alvarenga teve publicações avulsas n’ O Patriota, no Parnaso brasileiro de Januario da Cunha Barbosa, no Mosaico Poetico de J. Norberto e emilio Adet, na Revista do Instituto Historico Brasileiro ( Tomo III — pg. 343) e na Coleção de poesias ineditas.

foi o Conego Januario, amigo e discipulo de Alvarenga, o primeiro a reunir e publicar os trabalhos do ilustre poeta mineiro, cuja biografia estampou no Vol. II da Revista do Instituto Brasileiro. Outros seguiram-lhe as pegadas, até que Noberto concluiu o trabalho de reunir toda a produção de Silva Avarenga, salvando do esquecimento este precioso acervo literario.

No sequestro dos bens de Alvarenga, teriam desaparecido muitas composições suas, e, entre elas cita Norberto a centuria de sonetos satíricos dedicados ao famigerado Frei Raimundo, e uma tradução de Anacreonte, á qual o Conego Januario se referia sempre como sendo obra de grande engenho.

Silva Avarenga poetou ao gosto francês da epoca. Ainda imbuido de arcadismo, nao abusou como Claudio e Gonzaga das cenas pastoris e das paisagens de Arcadia. As suas melhores composições, são justamente aquelas cujos motivos foram tirados da natureza americana. Nestas condições encontramos verdadeiros primores em alguns rondós de Glaura:

Já dezembro mais calmoso

Preguiçoso o giro inclina,

Ilumina o céu rotundo,

Quer o mundo incendiar”.

ou no Rondó L:

“Como vem tão vagarosa,

O’ formosa e branca lua

Vem co’a tua luz serena

Minha pena consolar.”

Em maior numero são, contudo, os rondós onde aparecem cenas pastoris; estes são verdadeiramente insipidos e monotonos. Quasi todos, escritos em quartetos octasilabos, com a mesma cadencia, são de leitura fatigante pela repetição do metro e dos motivos.

Como Claudio e Gonzaga, foi Silva Avarenga um arcade preso ao lusismo. Não vemos onde Silvio Romero encontrou brasileirismo nas poesias arcadicas de Silva Alvarenga, para o julgar um dos nossos poetas nacionalistas. Supomos que o critico sergipano se tenha inspirado em Januario da Cunha Barbosa, que acerca do poeta de Glaura, escreveu este dispauterio: ” . . . quiz Manoel Inacio crear uma poesia tambem nova e brasileira, que se proporcionasse aos grandes sentimentos que deixam nas almas dos filosofos pensadores os aspectos deste aspectos deste pais por tantos motivos admiravel”.

Em toda a obra poetica de Alvarenga nada existe que con­firme a avaliação dos dois ilustres críticos patricios. Ao revez, nas poesias do bardo mineiro só encontramos um fiel respeito aos modelos, aos heróis e ás cênas da Arcadia; uma sintaxe e uma expressão toda portuguêsa, aliada a uma preocupação teimosa em cantar os principes, os capitães e às nobres da Metropole, tal como o fizeram os mais lidimos representantes do arcadismo português.

O poema Glauro finalisa com uma colecção de madrigais, sensaborões, enfáticos e monotonos. Em todo esse longo poema, que consideramos a obra mais fraca de Silva Alvarenga, não conseguiu o poeta o que pôde conseguir Gonzaga em suas liras: — velar a constancia dos motivos com a variedade da forma e o brilho da imaginação. Salva-o, todavia, na comparação, a maior independencia dos motivos adotados, pois o cantor de Marilia prendia-se mais aos modelos greco-romanos.

Nas quintilhas, canções e odes, dedicadas quasi todas ao vi­ce-rei D. Luis de Vasconcelos, á rainha D. Maria I, ao rei D. José, a D. Afonso de Albuquerque, o poeta, segundo o costume do tempo, desmancha-se em palavras laudatórias, velando ás ve­zes a bajulação, por uma leve ironia, que enche de graça as suas composições nesse genero.

Os idilios dedicados a Basilio da Gama, são dois quadros alegóricos, de colorido vivo e quente, mas, bem longe de retra­tarem as feições caracteristicas da natureza brasileira:

Num vale estreito o patrio rio desce

De altíssimos rochedos despenhado

Com ruídos, que as féras ensurdece.

Aqui na uasta gruta socegado

O velho pai das ninfas tutelares

Vi sobre urna musg,osa recostado.

Pedaços d’ouro bruto nos altares

Nascem por entre as pedras preciosas

Que o céu quiz derramar nestes luqares,

Os braços dão as aruores frondosas

Em curvo anfiteatro onde respiram

N o ardor da sesta as dríades formosas.

Os faunos petulantes, que deliram.

Chorando o ingrato amor, que os atormenta,

De tronco em tronco nestes bosques giram.

Mais que soberbo carro se apresenta?

Tigres e antas, fortíssima Amazona

Rege do alto lugar em que se assenta.

Prostrado aos Pés da intrepida matrona,

Verde, escamoso jacaré se humilha,

Anfibio habitador, da ardente sono.”

A não ser o emprego de alguns substantivos mais ou menos nacionais, nada mais ha nesta poesia de Silva Alvarenga, que lembre a alma da terra brasileira, com seus dias iluminados e resplandecentes, suas noites brancas, onde o luar espalha sobre a mata espêssa a sua luz lívida, e fria, acordando a farandula fantastica dos sacís-pererês, dos corupiras e caaporas, que en­chem de silvos e lamentos a calma da noite e o silencio miste­rioso dos vales e grotões. . .

Não compreendeu o lirista mineiro a alma da nossa terra; e, muito errado andou Silvio Romero, quando escreveu que “não foi o homem que o impressionou aqui; foi a natureza”. Contes­tando a afirmativa do ilustre crítico sergipano, aí estão os ver­sos da Gruta omericana, cujo vocabulario, sintaxe, estilo e sen­timento estético, mostram que bem alto predominavam no poeta mineiro as suas qualidades de arca de, que escrevia á maneira de Filinto Elísio, ria lingua sadia de Camões e Sá de Miranda.

Na sátira Os Vicios, toma Alvarenga feições de moralista, e é com graça que o poeta faz desfilar os vicias que afligem a humanidade, encarnados em deliciosas caricaturas, que se apre­sentam salpicadas pela ironia do poeta:

“Triste, cançado e magro o sordido avarento

Harpagon as moedas ajunta cento a cento:

Não fuma a chaminé, na casa reina a fome;

Quem pode advinhar o que, e quando come.”

ou adiante:

“Quem é este que passa vaidoso em seu caminho?

É do avaro harpagon o prodigo sobrinho,

Que alegre viu morrer o sordido avarento,

De forças, exaurido por falta de alimento,”

O poema didascalico As Artes, mostra-nos a adiantada cul­tura de Silva Alvarenga, que nele se nos apresenta familiarisado com as matematicas e ciencias físico-naturais.

Neste poema, que tem apreciaveis qualidades de forma e imaginação, diz José Veríssimo, observa-se uma inspiração mais desassombrada daquele ar pesado que o despotismo politico e re­ligioso tinha criado á mente portuguêsa.

Silvio Romero notou que neste poema Silva Alvarenga pre­sentiu a classificação hierarqnica das ciencias, sintetisada na fi­losofia positiva de Augusto Conte.

O Desertor das letras é um poema heroi-comico, escrito du­rante o fastigio do Marquês de Pombal ; tem a forma elegante, o estilo elevado e fluente, contendo algumas irreverencias, só explicaveis pela influencia que exercia sobre os espíritos cultos da época a politica reacionaria de Pombal:

“Geme infeliz a carunchosa estante

C’o peso de indulgentes Casuístas,

Dianas, Bonacinhas, Tamborinos,

Moias, Sanches, Molinas e Larragas.

Criminosa moral que em surdo ataque

Fez nos muros da igreja horrível brecha;

Moral que tudo encerra  tudo inspira

Menos o puro amor que a Deus se deve”.

A heroide Teseu a Ariadna e as outras produções de Silva Alvarenga, escritas no estilo das imitações clássicas, foram um tributo que pagou o poeta á moda que por algum tempo inva­diu as letras portuguêsas, no fim do seculo XVIII.

Em toda a sua obra, Alvarenga mostrou-se sempre um pro­fundo conhecedor da arte do verso, e habil manejador de todas as formas poeticas, sempre com originalidade, fluencia e elegan­cia, não descendo jamais do plano superior em que se colocou e se manteve no decorrer de sua longa existencia.

Silva Alvarenga, na expressão do Sr. Ronald de Carvalho, é uma figura de transição entre o seiscentismo de Claudio e o subjectivismo de Gonçalves Dias; é o élo que prende os arcades aos romanticos.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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