Nasceu Manoel Odorico Mendes na cidade de São Luis, na provinciado Maranhão, aos 24 de Janeiro de 1799. Foram seus pais o capitão-mór Francisco Raimundo da Cunha e d. Maria Raimundo Correia de Faria, esta descendente dos Beckman, pelo lado de Tornaz Beckman, irmão do Bequimão, (Manoel Beckman). Criou-o Manoel Mendes da Silva, que o tomou como fi­lho adotivo, e de quem o poeta tirou o sobrenome de Mendes.

Depois de concluir os estudos primarias, passou Odoríco a frequentar as lições de latim e retórica de Frei Inacio Caetano de VilhenaRibeiro, então um dos mais reputados professores da provincia. Embarcando para Portugal matriculou-se no Colegio das Artes, em Coimbra, onde fez os cursos de filosofia natural, racional e moral, e se aperfeiçoou no estudo da lingua grêga.

Tencionava Odorico Mendes fazer o curso de medicina na Universidade de Coimbra, não o conseguindo, contudo, por lhe haverem escasseado Os recursos com a morte de seu pai. Regres­sando então ao Maranhão, aí chegou a 1.° de dezembro de 1824, quando mais inflamadas iam as lutas entre o partido português e os adeptos da independencia. Alistando-se logo entre os ulti­mas, fundou Odorico, em São Luis, o jornal Argus da Lei, des­tinado a lutar contra o Censor e o Amigo do Homem, e cujo pri­meiro numero saiu em 7 de Janeiro de 1825.

Em pouco tempo, pelo seu talento e pela sua energia, ad­quiriu Odorico grande prestigio entre os seus conterraneos, que o elegeram deputado á primeira Assembleia Legislativa do Brasil. (1826-29).

Em 1826 encontramo-lo no Rio de Janeiro, colaborando num jornal liberal dirigido pêlo francês Pedro Chapuis.

Com Nicolau Vergueiro, Feijó e Costa Carvalho, fundou no Rio o jornal Astreia, e em São Paulo o Farol Paulistano, nos quais sustentou veemente campanha contra a politica do primei­ro imperador. Em 1839 redigiu com Aureliano Coutinho o pe­riodico Liga Americana, onde combateu energicamente as pretensões da França sobre o territorio do Oiapock. Colaborou ainda Odorico Mendes na Aurora Fluminense, no Homem, e a America, no Sete de Abril e no Jornal do Comercio.

Envolvido no movimento revolucionario que preparou o 7 de Abril, foi Odorico Mendes um dos factores da queda do pri­meiro imperio. A despeito de suas ideias republicanas e demo­craticas, Odorico Mendes e Evaristo da Veiga — os dois maio­res responsaveis pelo 7 de Abril — aceitaram, depois da abdica­ção, a monarquia constitucional como a unica forma de governo capaz de deter, naquele momento, a onda revolucionaria; reco­nheceram mais, os dois grandes patriotas, que sómente uma po­lítica reacionaria e conservadora seria capaz de manter o prin­cipio de -autoridade, já bastante abalado pela lndisciplina reinante em todas as classes civis e militares.

Odorico Mendes e Evariste da Veiga haviam sido os dois mais ardorosos revolucionarios, dentre os que prepararam o fim do primeiro reinado. Entretanto, em face da inesperada solução dada pelo Imperador á mensagem levada por Miguel Frias, re­conheceram ambos, numa esplêndida visão patriótica, que era preciso, sem mais detença, impedir o assalto dos demagogos ás posições do governo, fazendo unia contra-revolução capaz de evitar a ruína do Imperio. E assim, conseguindo reunir o congresso em sessão extraordinaria, obteve a nomeação da regencia provisoria: — Vergueiro, Lima e Silva e Costa Carvalho.

“Era Odorico a alma e um dos principais promotores de todos estes acontecimentos, — escreve Antonio Henrique Leal, d­envolvendo então espantosa atividade, de modo que achava presente em toda a parte, já nos clubes a dirigi-los e anima-los, já nos quarteis, como emissario do partido de acção, para con­certar com os militares os planos do movimento revolucionario”.

Ao ser proposta numa lamosa reunião realida na loja maçonica da rua do Valongo, a mudança do regime monarquico para o republicano, opô-se Odorico Mendes, vendo o perigo que tal modificação politica acarretaria ao pais naquele momen­to, muito embora isso contrariasse as suas convicçôes e os principios que até então sustentava.

“Os revolucionarios passaram assim de um momento para outro a conservadores, quasi reacionarios, contudo em condiçôes muito mais ingratas do que a do verdadeiro partido conservador quando defende a ordem publica, porque tinham contra si, pelas suas origens e pela sua obra revolucionada, o resentimento da sociedade que eles abalaram profundamente. Foi essa a posição do partido moderado que governou de 1831 a 1837, e que salvou a sociedade da ruina, é certo, contudo da ruina que ele mesmo lhe preparou”.

Tal foi a posição em que se colocou Ododco Mendes depois do 7 de Abril. Na cisão do Partido vencedor, ficou o ma­ranhense com os moderados ao lado de Evaristo da Veiga. Come­çou então o declinio de sua popularidade e a decadencia de seu prestigio. Acoimado de apostata e infiel aos principios do liberalismo exaltado que havia pregado, assistiu Odorico, com heroica abnegação, ao sacrificio de sua carreira politica, tão brilhantemente iniciada.

Ele, que na segunda legislatura, conseguira ser reeleito depu­tado pela oposição, derrotando o candidato governista, Mare­chal Costa Pinto, então presidente da provincia do Maranhão, não conseguiu nas eleições de 1833, um quarto, siquer, da vo­tação de seus antagonistas.

Foi em meio dessas lutas politicas que Odorico empreen­deu e concluiu a tradução da Merope de Voltaire, publicada em 1831 pela Tipografia Nacional.

Regressando ao Maranhão, depois de restabelecida a ordern no Rio de Janeiro, colaborou Odorico ao lado de seus antigos amigos da provincia, tendo redigido com Sotero dos Reis O Constitucional, periodico de ideias serenas e conciliatorias.

Em 1834 mudou-se Odorico definitivamente para o Rio de Janeiro, acompanhado de sua mãe e irmãos, nunca mais regres­sando á sua provincia natal. Reconduzido á Camara neste ano, na vaga do Barão de Pindaré, foi em 1844 eleito deputado por Minas Gerais, mandato que não concluiu por haver, em 1847, embarcado para Europa.

Em 1861, pouco antes de sua morte, fez Odorico uma viagem a Italia, regressando novamente a Paris, de onde pensava passar a Portugal, uma vez que o seu precário estado de saude não lhe dava esperança de regressar ao Brasil. Em 7 de Agosto de 1864, embarcou Odorico para Londres, em visita a velhos amigos ali residentes, e, na tarde do dia 17 do mesmo mes, ao regressar de Norwood onde fora jantar com Sir Alexandre Reid, foi acometido de um ataque de angina, falecendo no trem que o conduzia para Londres. Foi sepultado no cemiterio catolico de Kensal- Green, naquela cidade, sendo os seus funerais custeados pelo governo brasileiro.

Findou-se, assim, longe da patria, um dos espiritos mais li­berais do primeiro reinado, e um dos mais eminentes poetas do periodo de transição romantica, apesar da feição classica de sua obra.

A obra literaria de Odorico Mendes é quasi toda formada de traduções do francês, do latim e do grego. Publicou tambem algumas poesias originais, um opúsculo de erudição, reivindican­do para Portugal a composição do Palmeirim de Inglaterra, e grande numero de artigos políticos insertos nos jornais em que colaborou.

Publicou as seguintes obras:

Merope — tragedia de Voltaire, traduzida em português por M. O. M. — Rio de Janeiro — Tip. Nacional — 1831 — in 8.° de 16 pgs.

Tancredo — tragedia de Voltaire — traduzida em portu­guês por M. O. M. — Rio de janeiro — Tip. E. e H. Laemert — 1839 – in 8.° de XVI — 169 pgs., acompanhado do texto.

Eneida brasileira — ou tradução poética da epopeia de P. Virgílio Maro — Paris — Tip. de Regnaux — 1854 — in 8.º g. — de 392 pgs. com anotações.

Virgílio brasileiro — ou tradução do poeta latino — Paris — Tip. de W. Renquet e C°. — 1858 — in 8.° gr. de 800 pgs.

Iliada de Homero — em verso português. Editor e revisor Henrique Alves de Carvalho — Rio de Janeiro — Tip. Guttem­berg — 1874 — Publicação póstuma.

Opúsculo ácerca do Palmeirim de Inglaterra e do seu autor — Lisbôa — 1860 — in 8.° de 79 pgs.

Hino á tarde Rio de Janeiro – 1832 – in — Minerva brasiliense — (I — pg. 367), e in — Parnaso Maranhense.

Publicou ainda algumas poesias, entre as quais O Sonho, O meu retiro, Pedro II, Trio da Guerra da Italia, Epitafio, etc. re­produzidas no Parnaso Maranhense, no Parnaso brasileiro de Pereira da Silva, e no Panteon Maranhense de A. Henriques Leal.

Deixou inedita a Odisseia de Homero, recentemente publi­cada pelo governo do Estado do Maranhão.

As traduções de Odorico Mendes, feitas com grande fide­lidade, não são simples parafrases, como as que fizeram Souza Caldas e Eloi Ottoni. O autor estudou e compreendeu o espi­rito dos dois grandes classicos que traduziu, não desmerecendo em nada a beleza e a pompa dos versos originais.

O profundo conhecimento que tinha da literatura classica, a grande erudição que possuía, e o perfeito filólogo que era, per­mitiram-lhe fazer uma obra que, embora não seja isenta de im­perfeições, foi a melhor que se fez em nossas letras no genero ingrato das traduções, onde, na expressão de D. Francisco Ma­noel de Melo, só costumam caír os homens de pouco engenho.

A Eneida brasileira, primeiro livro da serie de traduções greco-latinas, empreendidas por Odorico, foi publicada em 1854, quando o autor se achava residindo em Paris. É um grosso vo­lume de 392 paginas, carregado de anotações, que bem mostram os profundos conhecimentos do poeta maranhense, na filologia e literatura antiga.

O verso de Odorico é conciso, polido, elegante, e a sua tra­dução fiel, a despeito da indole diferente das linguas que mane­java. A concisão e a fidelidade são, todavia, as duas qualidades mais notaveis das traduções de Odorico Mendes. Estas duas qua­lidades tão raras nos tradutores, tinha-as o maranhense em tal clóse, que assombra. Na tradução de Virgilio, conseguiu o poeta converter 9.901 hexametros latinos, em 9.944 endecasílabos por­tuguêses, e no poema de Homero, os 15.674 versos do original, foram reduzidos a 13.166 na tradução!

Pretendendo melhorar a primeira edição de Eneida, dispôz-­se Odorico a traduzir toda a obra vírgiliana, e assim, em 1858, dava á estampa nos prelos da tipografia W.Renquet, de Paris, 0 seu Virgilio brasileiro, que, além da Eneida melhorada, trazia  as Georgicas e as Bucolicas.

Nesta edição o autor colocou o verso latino, ao lado do vers0 português, acompanhando todos os livros de notas e observa­ções importantes. Como na primeira tradução virgiliana, mauteve sempre o poeta maranhense as suas qualidades de erudito e filólogo, para quem as dificuldades da lingua e a interpretação dos textos, eram barreiras vencidas sem esforço, e, as mais das vezes, com admirável pericia.

Segundo a avaliação dos mais eminentes latinistas, é a obra de Odorico uma das melhores versões poeticas da obra virgilía­na, que se tem feito em todas as linguas.

Borges de Figueiredo, João Francisco Lisbôa, Sotero dos Reis, Joaquim M. de Macedo e quantos outros, são unânimes em elogiar a obra de Odorico. “Nenhuma das versões da Eneida, que tenho lido — escreve Sotero dos Reis — iguala a esta na ver­dade com que exprime a poesia imaginosa ou simplesmente imi­tativa do original, como podeis, senhores, certificar-vos, abrindo qualquer dos respectivos livros, e fazendo dela leitura comparada, pois não ha um só verso de Virgilio notavel por alguma be­leza, que não se ache transladado com toda a sua valentia e graça”.

Depois de nos dar a tradução da obra virgiliana, empreen­deu Odorico outra tarefa, não menos ardua e dificil, — a trans­ladação dos versos da Iliada e da Odisseia de Homero, para a lingua portuguêsa. Pretendia o poeta publicar a tradução dos dois poemas homericos, quando regressasse ao Brasil, utilisando-se, para isso, de uma lei votada pela Assembleia Provincial do Ma­ranhão em 1864, por iniciativa de Antonio Henrique Leal. Fa­lecendo o poeta no mesmo ano, ficou a obra por imprimir, sen­do afinal, ainda por iniciativa de Antonio Henrique Leal, publi­cada a Iliada em 1871, ficando inédita a Odisseia, que só agora acaba de ser dada a lume, por conta do governo do Maranhão.

Os poemas de Homero foram traduzidos por Odorico com toda a beleza e toda a pompa dos originais. Todavia, um dos de­feitos apontados nessas traduções, e que lhe valeu injustas apre­ciações de Silvio Romero, é relativo ao abuso que fez o poeta dos neologismos, arcaísmos, termos barbaros, chegando muitas vezes, esse abuso, a prejudicar de uma maneira lamentavel a clareza de suas traduções:

“Ao falecido fala Heitor: — “Porque me agouras

Destino tal? Quem sabe se indo ao nado

Da pulcricoma Tetis hei-de a vida, 

Extinguir? Nisto, o calca, e o exiopique

Da ferida sacando, o resupino

Corpo com ele afasta; o enrista ansioso

Trás o pagem deiforme do Pelides,

Audomedon, que os imortais ginetes,

A Peleu dom celeste, arrebataram.”

Para dar maior concisão aos versos portuguêses, diante da indole diferente das linguas, foi o poeta obrigado a criar voca­bulas que pudessem exprimir mais de uma ídeia. Contudo, o ex­cesso a que o levou esta preocupação, prejudicou em grande par­te a beleza de sua inspiração.

As traduções de Merope e Tancredo, de Voltaire, guardam o mesmo respeito e fidelidade ao original, que encontramos nas suas traduções greco-latinas, contudo os versos são mais límpidos, mais fluentes e com menos preocupação erudita.

Das composições originais de Odorico Mendes, destacare­mos o Hino á Tarde, belissima evocação, que apesar de sua leve feição e inspiração arcádica, é um produto das primeiras horas do Romantismo.

Segundo José Veríssimo, este sentido poemeto, já prenun­cia Gonçalves Dias pelo tom sentimental de seu lirismo, mais subjectivo que o de Magalhães .

O Hino á Tarde, e quasi todas as composições originais de Odorico, foram escritas por volta de 1829, motivo pelo qual o incluímos, de acordo com o criterio de Silvio Romero, entre os poetas da fase de transição romantica.

“Que hora amavel! Expiram os favonios,

Transmonta o sol; o rio se esprequiça,

E a cinzenta alcatifa desdobrando

Pelas azuis diafanas campinas,

Na carroça de chumbo assoma a tarde.

Salve, moça tão meiga e soceçaga;

Salve formosa virgem pudibunda,

Que insinuas co’os olhos doce afecto,

Nã0 criminosa abrasadora chama,

Em ti repousa a triste humana prole

Do trabalhado dia nem já lavra

Juiz sevéro a barbara sentença

Que ha de a fraqueza conduzir ao tumulo.

Lasso o colono, mal avista ao longe

A irmã da noite, cõa-lhe nos membros

Plácido alivio: posta a dura enxada,

Limpa o suor que em bagas vai caindo,

Que ventura! A mulher o espera ansiosa

Co’os filhinhos em braços: Já deslembra

O homem dos campos a diurna lida;

Com entranhas de pai, lêdo abençoa

A progenie gentil a olho pula,

Não vês como o fantasma do silencio

Erra, e pára o bulicio dos viventes?

Só quebra esta nudez o pastor simples

Que, trazendo o rebanho dos pastios,

Com a suspirosa flauta ameiga os bosques.

Feliz! que nunca o ruido dos banquetes

Do estrangeiro escutou, nem alta noite

Foi á porta bater de alheio albergue.

.          .          .          .          .          .          .         .          .          .           .

Tarde serena e pura, que lembranças

Não nos vens despertar no seio d’alma?

Amiga terna, diz-me aonde colhes

O balsamo que esparges nas feridas

Do coração? que apenas dás rebate

Cala-se a dôr; só geras no êrmo peito

Mansa melancolia, qual ressumbra

Em quem sob os seus pés tem visto as flores

Irem murchando, e a tréva do infortunio

Pouco a pouco ante os olhos condensar-se.

.          .          .          .          .          .           .          .          .          .

Co’ a turba de inocentes companheiros,

Agora sobre a encosta da colina,

A’ casta lua, como mãe, andavamos,

E suplicando que nos fosse amparo,

Em jubilosa grita o ar rompíamos.

Mas da puericia o genio prasenteiro

Já transpôz a montanha; e com seus risos

Recentes gerações vai bafejando:

A’ quem ficou a angustia, que moderas,

Ó compassiva tarde! Olha-te o escravo,

Sopeia em si os agros pesadumes;

Ao som dos ferros o instrumento rude,

Tange, bem como em Africa adorada,

Quando — tão livre — o filho do deserto

Lá te aguardava; e o éco das florestas,

Da ave o gorgeio, o trépido regato,

Zunindo os ventos, murmurando os sonhos,

Tudo em cadencia harmonica lhe rouba

A alma em magico sonho embevecida.”

A nota lírica e melancólica, com traços de pessimismo e desalento, como a sentiram depois os poetas da segunda geração romantica, teve-a nitida e inconfundivel Odorico Mendes, em sua poesia O Sonho, publicada em algumas colecções, tambem com o titulo de A Morte. (Parnaso Maranhense – 1861).

“O furacão da morte

Varre medonho os campos da existencia,

Perdoa os secos troncos,

Leva consigo florescentes plantas,

Cuidados do colono esperançoso.

Sobre o meu leito pobre

Se debruça a cruel, fita-me os ‘olhos;

Um Pérfido sorriso

Lhe torce os beiços palidos… Já vejo

As maguas, as saudades da partida,

Da pairia o doce ninho,

Da mãe (tão terna) as lagrimas sentidas,

Dos irmãos, dos amigos,

O ultimo adeus, e em Letes ensopado,

O negro manto que lhe cobre a campa.

Que triste a final cêna!

Mas o quadro da vida inda é mais triste!

As breves alegrias

Num só ponto aparecem mal distintas

E sombreiam-lhe o fundo os infortunios.

Que bem ha cá na terra?

O crime estende o formidavel cétro.

Raro fulge a virtude,

Em torno ao coração o prazer voa,

A dõr penetra e vai sentar-se no’mago!

Eu, que em meus devaneios

Sonhei tanto com glorias e venturas,

Vi sempre derribadas

As esperanças; e o pungente alfange

Da desfortuna contra mim alçar-se.

No circulo afanoso

De meus juvenis anos nada tenho

Que agradeça ao destino.

Da velhice os pesares me aguardavam!

Contente apararei o extremo côrte”.

Esta poesia que traz todos os característicos do lirismo sub­jectivo, pessimista e desalentado, da geração de Alvares de Aze­vedo e Casemiro de Abreu, é, depois dos sonetos de José Maria do Amaral, o mais perfeito especimen da poesia de transição para a primeira fase do romantismo. Teria sido Odorico Men­des um dos nossos melhores poetas romanticos, si a sua modes­tia e invencível horror á vulgaridade, não houvessem desviado o seu estro para obras de maior engenho.

No prologo da Eneida brasileira, declara o autor que não podendo empreender uma obra original, ao menos de segunda ordem, abrigava-se sob as asas de Virgílio, pois só assim dura­ria na memoria dos seus concidadãos, ainda uns anos depois da sepultura.

Julgando-se desta forma, Odorico Mendes privou as letras patrias de um poeta que seria, talvez, um dos maiores do nosso Romantismo.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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