Nasceu Mariano José Pereira da Fonseca no Rio de Janei­ro, no dia 18 de Maio de 1773, sendo seus pais o negociante Do­mingos Pereira da Fonseca e D. Tereza Maria de Jesus.

Era ainda muito jovem, pois contava apenas 11 anos de idade, quando embarcou para Portugal, afim de estudar prepa­ratorios no Real Colegio de Mafra.

Concluindo o seu curso de humanidades, matriculou-se na Universidade de Coimbra, onde frequentou o curso de matemá­ticas e filosofia, recebendo o grau de bacharel em 1793, equiva­lente ao nosso titulo de engenheiro, actualmente.

Findos os seus estudos universitarios, regressou Maricá ao Rio de Janeiro quando terminava o governo de D. Luis de Vas­concelos e Souza. Fez parte da Sociedade Científica e Literaria fundada por Silva Alvarenga em 1786, com o qual foi preso e encerrado nas masmorras da fortaleza da Conceição, em Dezembro de 1794.

Envolvido na devassa aberta pelo vice-rei Conde de Rezen­de, foi Mariano da Fonseca processado por crime de inconfi­dencia, sendo conservado preso até 1797, ano em que chegou a carta régia de D. Maria I, perdoando os implicados na denuncia de Silveira Frade.

Recolheu-se, então, Mariano da Fonseca á vida privada, de­dicando-se aos estudos de moral e ciências sociais, que eram de sua especial predilecção.

Em 1813, começou a publicar no jornal O Patriota, as suas Maximas, Pensantentos e Reflexões, sob o criptonimo de Um Brasileiro.

Tomou parte no movimento da independencia, tendo sido uma figura de destaque social no primeiro reinado. Foi ministro de Estado, Conselheiro e Senador do Imperio, tendo-o D. Pedro I agraciado com o titulo de Visconde e depois Marquês de Ma­ricá.

Amigo do primeiro imperador, retirou-se da vida publica depois do 7 de Abril, recolhendo-se á tranquilidade de suas me­ditações, a fim de concluir a copiosa colecção de maximas e pen­samentos que começava a publicar em 1837. Outras colecções saíram a lume em 1839, 1841, 1844, 1846 e 1848, sendo a ultima poucos dias antes de sua morte.

Agravando-se o seu estado de saude, em principias de 48, faleceu Maricá no Rio de Janeiro, aos 16 de Setembro do mes­mo ano.

Velho restaurador, não o vemos figurar na política nacional depois da abdicação. Os agitados dias da Regencia e os suces­sos da Maioridade, não lograram tirar o velho marquês de suas cogitações moralistas. Com a queda do primeiro imperador, encerrou definitivamente a sua carreira política.

As Maximas, Pensamentos e Reflexões do Marquês de Ma­ricá, foram impressas pela primeira vez, em volume, em 1841, para distribuição gratuita. Outras colecções foram sendo publi­cadas posteriormente, saindo afinal uma edição definitiva em 1850, sob o titulo de Colecção completa das maximas, Pensamentos e Reflexões do Marquês de Maricá — Rio de Janeiro — 1850 — E. & H. Laemert — in 8.°.

Com o intuito de espalhar a sua doutrina moral, pondo-a ao alcance de todos, facultou Maricá, àqueles que o quizessem, a reimpressão de sua obra.

Na ultima colecção que publicou, em Fevereiro de 1848, o total das máximas e pensamentos atingia a 4185. Essas maximas, segundo declara o autor, foram escritas entre os sessenta e se­tenta e cinco anos de idade, “por ventura para lhes dar o peso da autoridade de maior experiencia”, comenta José Veríssimo. Norberto contestou essa afirmação de Maricá, em nota ás Obras Poeticas de M. I. da Silva Alvarenga.

A literatura moralista, mal iniciada entre nós, por Nuno Marques Pereira, no Compendio Narrativo do Peregrino da America, e Matias Aires, nas Reflexões sobre a vaidade dos ho­mens, não teve outros cultivadores. A ciência moral, transmitida por meio de maximas e anexins, antes e depois de Maricá, não foi cultivada no Brasil. Falta á mentalidade brasileira o espirito de sintese e concisão, indispensavel a esse genero de literatura. O nosso espirito, mais inclinado á analise e largas dissertações, mesmo entre os mais ilustres representantes da cultura patricia, não poderia continuar o genero literario preferido por Mariano da Fonseca. O proprio Maricá, apesar de sua tendencia para este genero literario, não pôde conseguir, quer pela sintese e conci­são da idéia, quer pela penetração ou originalidade do pensa­mento, o que conseguiram os moralistas francêses, como Mon­taigne, La Rochefoucauld, Vauvenargues, La Bruyére e Pascal.

“Maximas e pensamentos — escreve José Veríssimo, — va­lem, talvez, pela forma que revestem. São o imprevisto, o resalta, junto á concisão e a justeza desta que os valarisa”.

Nem sempre encontramos nas maximas de Maricá estas condições; antes, pelo contrario, cai muitas vezes o moralista flu­minense, na trivialidade, com pensamentos de vôo rasteiro. Além disso, talvez por índole, não era Maricá habil manejador do paradoxo; e, faltava-lhe cultura filosofica, fundamental a quem pre­tendia, em pequenas sinteses, reflectir a alma humana.

Todavia, as quatro mil maximas de Maricá, representam uma preciosa contribuição para a nossa ainda muito pobre lite­ratura moralista. Elas são o reflexo do espirito religioso e libe­ral do velho fluminense, e muitas vezes gôtas causticantes, que o moralista deixava cair sobre alguns politiqueiros pernostícos, ou velhacos impenitentes.

Assim sentenciava o velho marquês:

“Uns homens sobem por leves como vapores e gases, outros como os projectis, pela força do engenho e do talento.

“Os tufões levantam aos ares os corpos leves e insignifican­tes, e prostam em terra os graves e volumosos: as revoluções po­titicas produzem algumas vezes os mesmos efeitos.

“Mudamos de paixões, contudo não vivemos sem elas.

“Quando o povo não acredita na probidade, a imoralidade é geral.

“Para bem falar não é o saber que falta a muitas pessoas, contudo a protervia e a filaucia da ignorancia.

“Os que mais blasonam a honra e a probidade, são como os poltrões que se inculcam de valentes”.

Neste genero, encontram-se em sua obra milhares de ma­ximas, de leitura agradavel e deleitosa, não só pela agudeza de muitas de suas reflexões, como tambem pela simplicidade e sin­geleza de seu estilo, isento das preocupações escolásticas que ain­da embaraçavam os escritores seus contemporâneos.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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