As ideias filosóficas dos enciclopedistas adotadas pela Re­volução Francesa, a proclamação da independencia americana, a ancia de liberdade que se alastrava pelo mundo com as palavras do Contracto Social e a declaração dos direitos do homem, cria­ram no fim do seculo XVIII, um ambiente de liberalismo, de reação e de fé nas conquistas do espírito humano, de onde re­sultou o Romantismo.

O ideal romantico, apareceu então como uma reação a to­das as atitudes anteriores. Todas as manifestações, quer no do­minio do sentimento, quer no dominio da inteligencia, eram ca­racterisadas por um amargo pessimismo, um lirismo exagerado, um individualismo egocêntrico e uma grande fascinação pelo mis­terioso e desconhecido.

Ao mesmo tempo que se operava na Europa Ocidental essa reação, surgia no Brasil um movimento idêntico, expontâneo, sem qualquer pretensão de imitação europeia, contudo instintivo e inconsciente, movimento este iniciado pelos poetas do grupo mi­neiro, e continuado pelos predecessores imediatos dos romanti­cos de 1836.

Essas manifestações pre-romanticas, surgiram com os poe­tas de Vila Rica e as primeiras idéias de liberdade política, partidas do grupo “dos doze de Coimbra”, chefiados por José Al­vares Maciel e Domingos Vidal Barbosa.

Vamos encontrar, depois, o mesmo entusiasmo romantico, nos rincões do Uruguai e do Caramurú, nas liras de Gonzaga, nos rondós de Alvarenga, nas visões patrioticas de Felipe dos Santos e Tiradentes, e na el0quência revolucionaria de Domin­gos Martins e Frei Caneca.

Começava então o Brasil, influenciado por esses movimen­tos revolucionarios, a pensar por si proprio, procurando alijar o jugo português, criando uma literatura já livre do classicismo que pesava em todas as composições do seculo XVI e XVII, ex­cepção do divergente Gregorio de Matos.

Esta reação expontânea e inconciente dos nossos escrito­res coloniais, passando a fazer uma literatura com novas fontes de inspiração, nova forma do verso, linguagem moderna, cons­trução sintática diferente da até então adotada, caracterizam a fase de nossa transição romantica.

O Uruguai e o Caramurú, foram os primeiros poemas que, encerrando todas as qualidades dessa reação, introduziram pela primeira vez o indio, como elemento literario.

Claudio Manoel, Gonzaga e os Alvarengas, empregando em suas poesias um lirismo novo, um panteismo alegre e suave, e um subjetivismo até então desconhecido em nossas letras, lançaram definitivamente os bases da nova escola.

A Inconfidencia mineira, em que tomaram parte, é o pri­meiro germen da emancipação politica que, tres decadas depois, o romantico Pedro I, proclamaria na colina do Ipiranga.

Antes que chegasse enfardado de Paris o nosso Romantis­mo, já o tinhamos, presentido nas letras, pelos poetas do grupo mineiro, e, na politica, pela adoção da Carta Constitucional de 1824, documento do mais puro romantismo, na expressão de Sil­vio Romero.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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