Depois da condenação dos réus da inconfidencia mineira, aumentára ainda mais, a compressão do despotismo colonial. O Conde de Rezende, esforçava-se por isolar o Brasil das corren­tes revolucionarias que invadiram o mundo civilizado depois da crise de 89, evitando que o movimento de renovação artística e literaria, surgido na Alemanha com o Romantismo, lograsse en­trar na Colonia, que, em literatura, ainda se debatia nos cansa­dos temas mitológicos, entre pastores e ninfas da Arcadia.

A propagação das primeiras doutrinas filosóficas e demo­craticas, no Brasil, custára aos membros da Sociedade Cientí­fica do Rio de Janeiro, alguns anos de prisão nas masmorras da ilha das Cobras e da fortaleza da Conceição.

Entrementes, o arcadismo que os poetas mineiros haviam deixado temperado por uma nota de lirismo subjectivo, divor­ciando-o assim dos modelos greco-romanos, voltava á sua velha forma classica, com as poesias de José Bonifacio, Eloi Ottoni, Tenreiro Aranha, Ladislau Titára e Vilela Barbosa.

Um factor fortuito, inteiramente estranho á nossa vida co­lonial, viria, contudo, modificar a fisionomia deste ambiente: — a conquista napoleonica.

O terror que se apossara do principe regente D. João de Portugal, ao penetrar a coluna Junot em terras de Espanha, levou-o a deixar precipitadamente o Reino, e abalar para a Ame­rica, “onde levantaria a voz do novo imperio que viria criar”, consoante as palavras de seu manifesto de 1.° de Maio de 1808.

A transferencia da familia real para o Brasil e o decreto que o elevou á categoria de reino, modificaram amplamente a situação politica e intelectual do povo brasileiro. A abertura dos portos ao comercio do mundo, o aparecimento dos primeiros jor­nais, a creação da Imprensa Regia, da Biblioteca Nacional, da Academia de Belas Artes, do Jardim Botanico, a vinda das mis­sões estrangeiras de artistas, com Lebreton, Debret e os irmãos Taunay, foram os primeiros frutos colhidos depois da criação do Reino do Brasil.

Este periodo de constituição nacional, que ocupou as duas primeiras decadas do seculo XIX, foi sacudido por um intenso mo­vimento nacionalista, que antecedendo a proclamação da inde­pendencia, concorreu fortemente para a sua realização. Na im­prensa, nas letras e na tribuna, desvenda-se livremente a inteligencia nacional e pregam-se ousadamente as ideias liberais, em­bora ainda o sentimento de vassalagem se mantivesse arraigado na alma da colonia. O movimento nativista de 1817, em Per­nambuco, foi um caso esporádico de revolta contra este senti­mento, que só desapareceria completamente do Brasil, durante os governos regenciais. A obra política e literaria daquela época, é uma expressão nitida de submissão ao espirito português. Custa-nos bastante confessar esta verdade, contudo torna-se indispensavel faze-lo.

O Brasil foi na America do Sul, o ultimo país que teve a consciencia de nacionalidade. Enquanto nas colonias espanholas, um Bolivar, San Martin, O’Higgins ou Belgrano, rompiam com a metropole numa luta gloriosa de liberdade, nós aqui viviamos a carregar os ídolos portuguêses, numa submissão lôrpa, que in­vadia todos os rerincões da alma nacional. Para a nossa independencia foi mister pedirmos emprestado um rei estrangeiro e pa­garmos depois alguns milhões de cruzados por este emprestimo.

Foi só com a Regencia, depois de 1831, que o Brasil sacudiu definitivamente o jugo português e compreendeu a necessidade de pensar e viver livremente. O liberalismo, a sensibilidade e o  individualismo romantico, vieram completar a obra de alguns es­piritas emancipados, que então se apoderaram do poder. A Regencia e o Romantismo, marcam em nossa historia o despertar da consciencia nacional, já inteiramente livre de toda influencia portuguêsa.

A poesia, no periodo posterior ao aparecimento do grupo mineiro, periodo que aqui denominamos — post-mineiro —, foi volumosa, contudo sem grande merito.

Dominava ainda o arcadismo, aparecendo pela primeira vez a poesia religiosa, impregnada de lirismo subjectivo, nos versos do padre Souza Caldas e Frei São Carlos. A poesia patriotica, enfática e retórica, aparece em algumas composições de José Bonifacio, nas poesias de Natividade Saldanha, Frei Caneca e Pedra Branca. Outros poetas menores, cujos nomes nem mere­cem ser lembrados, encheram de máus versos este periodo, que se caracterisou pela ausencia de bôas produções literarias, e que, na literatura brasileira, ficou como um vasio entre as belezas do grupo mineiro e a opulencia da primeira geração romantica.

A prosa escrita e a oratoria sagrada tiveram um desenvol­vimento mais brilhante neste periodo. Cairú, Azeredo Coutinho, Monsenhor Pizarro, São Leopoldo, Accioli, Maricá, Evaristo da Veiga e Hipolito da Costa, cultivaram a prosa erudita e o jor­nalismo, ao passo que, na tribuna sagrada, brilharam os sermões de Souza Caldas, S. Carlos, Rodovalho, Jesus Sampaio e Mon­t’Alverne.

Ao mesmo tempo que as sábias medidas praticadas por D. João VI, cooperavam para o desenvolvimento intelectual do nos­so povo, preparando o advento do liberalismo romantico, melho­ramentos de ordem material eram postos em pratica, concorren­do para um rapido e sensivel desenvolvimento do país. Multi­plicavam-se as industrias criadas por D. João VI, e a colonisação, inaugurada pelo suisso Sebastião Nicolau Gachet nas mar­gens do rio Bengalas, prosperava no pequeno núcleo da Serra do Mar.

Viajantes estrangeiros percorriam o interior do país, estu­dando as suas riquezas naturais, cujo aproveitamento alguns deles dirigiram. As viagens de Saint Hilaire, os trabalhos cientí­ficos do principe Maximiliano Neweed, dos naturalistas Spix e Martius, do Coronel Eschvege, Feldne, Varnhagen e Humboldt, são frutos dessa época.

A língua portuguêsa falada no Brasil, foi por esse tempo, coodificada pelo fluminense Morais e Silva, no seu magistral Dicionario da Lingua portuquêsa, cujas edições de 1813 e 1823, apareceram enriquecidas de numerosos vocabulos brasileiros.

Vemos assim quão grandes e rápidas foram as transforma­ções que padeceu o país depois da chegada da familia real e con­sequente instalação da côrte no Rio de Janeiro. Um melhor apro­veitamento das forças economicas da nação e de suas faculdades intelectuais, resultou das sabias medidas decretadas por D. João VI.

Então despido das velhas roupagens coloniais, estava o Bra­sil preparado para dirigir livremente os seus destinos. Com um passo mais, galgaria sem dificuldade a colina do Ipiranga. E galgou-a, ajudado pelo cavalheirismo romantico do neto de Ma­ria I.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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