Nas tres primeiras décadas que precederam o aparecimento do Romantismo no Brasil, a prosa foi abundante, variada, complexa, contudo mediocre. Longa é a lista dos que se dedicaram ao jornalismo, á economia política, á biografia, á historia, á teolo­gia e á moral, poucos sendo, contudo, aqueles que produziram obra duradoura, que ainda mereça ser lembrada.

As condições favoraveis a um reerguimento material e es­piritual, criado pela instalação da côrte portuguêsa no Rio de Janeiro, deve-se o aparecimento de um grande numero de capa­cidades, algumas vindas das mais longínquas províncias, e que, cêdo formaram na ala dos batalhadores da independencia.

As ideias separatistas esboçadas em movimentos isolados e regionais, adquiriram vitalidade nova com o decreto que elevava o Brasil á categoria de reino. Assim o compreenderam os pre­cursores da independencia, que, célere, começaram a trabalhar para a constituição de uma patria livre.

Um entusiasmo ingenuo e sincero avassalava todos os bra­sileiros, e cada qual, de animo puro, esforçava-se para levar a sua pedra ao edificio que já se apresentava gigantesco em suas bases. E então, uma turba de letrados, se apresenta na segunda década do seculo XIX, portadora de uma volumosa produção, onde se enfeixavam os mais complexos e variados assuntos.

O jornalismo, inaugurado no Rio de Janeiro em 1813, com o aparecimento d’ O Patriota, teve obreiros como o polígrato Manoel Ferreira de Araujo Guimarães, Antonio José do Ama­ral, Joaquim Gonçalves Ledo, Vasconcelos Drumond, Acaiaba Montezuma, Cipriano Barata e quantos outros. Dois nomes, en­tretanto, merecem ser lembrados á parte, nessa época memora­vel : — Hipolito da Costa e Evaristo da Veiga. O primeiro no Correio Brasiliense, publicado em Londres, deixou um traço no­tavel na constituição do nosso periodismo, e o segundo, nas colunas da Aurora Fluminênse, inaugurou o jornalismo de combate, fa­zendo da imprensa a tribuna da avaliação publica.

Doutrinadores, teoristas e teologos, enchem os jornais e as bibliotecas, popularisando as modernas conquistas do pensamen­to europeu; e os nomes de Locke, Adams Smith, Malthus e Bur­ke, substituem os velhos pensadores do século XVIII.

José da Silva Lisbôa e o bispo Azeredo Coutinho iniciam os primeiros estudos de comercio e economia politica entre nós, ao mesmo tempo que o Marquês de Maricá, dentro da sua rigi­dez de moralista, facultava a todos a publicação de suas Muri­nias e Reflexões.

A historia nacional, que no seculo anterior havia recebido os seus primeiros impulsos com Rocha Pita, Jaboatão, Pedro Taques e Frei Gaspar, apresenta-se mais sistematisada nos tra­balhos de Baltazar da Silva Lisbôa, Monsenhor Pizarro, Gon­çalves dos Santos, Inacio Accioli e o Visconde de S. Leopoldo.

A obra de alguns destes prosadores não deveria, em rigor, ser incorporada á literatura. Todavia, a historia literaria não poderá isentar-se de estuda-los, atendendo a que eles iniciaram alguma cousa de novo na cultura e nas letras do seu tempo.

Ao lado dos prosadores, os melhores poetas dessa época, muito ao contrario do que afirma José Veríssimo, tiveram parte  activa no movimento da independencia. José Bonifacio, Nativi­dade Saldanha, Frei Caneca, Pedra Branca Vilela Barbosa Conego Januario e quantos outros, foram figuras eminentes da campanha separatista.

 

FONTE: PARANHOS, Haroldo. História do romantismo no Brasil. São Paulo: Edições Cultura Brasileira, 1937.

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