ARTHUR LOUREIRO e a Academia de Bellas-Artes

Ha tempos n’uns bem elaborados artigos da Voz Publica, alguem, que eu não sei quem é, veio exibir a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.

Achei tão acceitavel e tão util para a Academia essa ideia, que n’este momento em que me tenho de occupar da sua exposição de quadros, entendi dever acompanhar na sua propaganda quem tão desinteressadamente a apresentou. Não é que eu venha a campo lutar contra afincadamente em favor d’este artista, não, venho só como mero espectador do grande palco da vida applaudir quem soube exibir a ideia.

Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.

Não foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor não é uma mera galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida do que entre nós.

Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do metier do que aquelles que meramente se demoram lá por fóra uns tres ou quatro annos. É certo que muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.

Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente, taes como:―examinador das classes de Arte [136]da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.ª classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.

Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro
Só no mundo―Quadro de
arthur loureiro

Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam é o que o seu nome era ali conhecido e que estava á altura de occupar esses logares com toda a hombridade e todo o saber.

Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem d’arte.

Concorreu a muitas e variadas exposições, onde os seus quadros foram sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como primordiaes a Exposição Religiosa da Belgica onde o seu quadro, A Visão de Santo Stanislau de Kastka, foi acolhido com enthusiasmo por toda a critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso, l’Albé Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a convite, á Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com diploma d’honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.

Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e muito, lá fóra, como um verdadeiro artista que é.

[137]Estou d’aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas minhas despretenciosas notas, contudo não são ellas mais do que o desejo de provar que o homem está á altura de occupar um logar de professor na nossa Academia.

Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu saber artistico, ellas serão convincentes.

Se elle é um grande artista, não é menos um grande trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para expôr e vender, quer dando lições áquelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu atelier, no Palacio de Crystal Portuense. N’esse mesmo atelier já por varias vezes tive o prazer de visitar exposições organisadas por elle.

Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto tempo, não se deshabituara das côres e da luz da nossa boa terra. Não veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da França, nem com o vermelho violaceo da Italia.

Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava rutilantemente no espaço, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.

Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.

Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposições, e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos foram á uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, não teve por onde o atacar, nem veiu dizer d’elle senão que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia não seja para largas manifestações.

Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposição.

No atelier de Arthur Loureiro, ha um não sei que de conforto que nos prende. Sob a sua direcção tem-se transestabelecido aquella fria sala n’um bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado com simplicidade, contudo com um especial cachet de galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.

[138]Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.

Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo é De aldeia em aldeia e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:

Sob a cruz pesada e feia
Da miseria que a consomme
Corre d’aldeia em aldeia,
Na Via-sacra da fome.

De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro
De aldeia em aldeia―arthur loureiro
É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho encharcado. Que correcção e que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre não se envergonhará de assignar.

No pinhal. É um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a sua coma dum verde foncé, que parece sussurrar com a aragem que passa.

Mar agitado. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez d’ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.

Vaga quebrada. É um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor está pintada essa molle de agua, que n’um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz para o ar, como n’um grito de desespero!

[139]Retrato de G. Nogueira. Este retrato é um primor de parecença e de trabalho. Loureiro poz n’elle um cuidado especial e amigo; é uma obra prima.

Nevogilde. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito nossa.

Padeira de Avintes. É um delicioso estudo dos nossos costumes populares. Modelo gracil e airoso como são todas as nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente pintado.

Barcos. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d’um azul transparente e bom.

Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria; alguns estudos de desenho, cabeças rigorosamente estudadas nos seus claros-escuros.

E esta exposição não está a abarrotar de exemplares, contudo toda ella comporta coisas lindas e boas.

Ao sahir d’ali, vem-se sob a impressão sincera de que tudo aquillo é nosso, e muito nosso.

Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de lá voltar muitas mais vezes.

Paisagem―Arthur Loureiro
Paisagem―arthur loureiro

Flora―Quadro de Arthur Loureiro
Flora―Quadro de arthur loureiro

Fonte: Lemos, Antônio de. Notas d'Arte.  TYPOGRAPHIA UNIVERSAL.  PORTO. 1906

					
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