NOVAS EXPOSIÇÕES D’ARTE

Ao mesmo tempo duas exposições de pintura, uma organisada pelo Instituto de Estudos e Conferencias, outra organisada pelo snr. Lagôa. Estamos em maré d’Arte, não ha que vêr. Ora eu, que sou um bisbilhoteiro de mil diabos, lá fui, n’um d’estes ultimos dias de bom sol, visitar as duas exposições.

Boas e más impressões trouxe d’estes certamens e é o que muito despretensiosamente direi para diante, conforme o meu modo de vêr.

Tem, já se sabe o primeiro logar, a exposição do Instituto, e tem-no por muitos e variados motivos; entre esses porque é formada por trabalhos de artistas, se bem que por lá andem anichados puros amadores… Mas, isso fica para depois, para mais larga conversa quando não houver já que dizer a respeito dos artistas.

Ao Instituto de Estudos e Conferencias, se deve, em parte, a ameudação de exposições d’esta natureza; pena é que nem todos os nossos artistas comprehendam o quanto isto é util para elles.

Sente-se por isso alli a falta dos nossos melhores pintores, e é pena. Não sei, nem tentarei desvendar a razão porque os bons artistas não querem concorrer, contudo sinto profundamente que Salgado, Malhôa, Columbano, Carlos Reis, Girão, e outros, se fiquem, lá de longe, sem nos dar o gosto de lhes applaudir e admirar o talento nas suas varias telas, que são quasi sempre admiraveis. Talvez porque não encontrem no nosso meio quem os saiba comprehender ou quem os saiba pagar, talvez!…

[82]A exposição, no seu geral, é fraca, sem interesse (que barbaro eu sou). A não ser uma meia duzia de telas, o resto é insignificante, sem destaque, morrendo pelo… nem sei mesmo porque… mas fazendo-nos sentir a saudade das 

D. Sophia de Sousa
D. Sophia de Sousa

exposições realisadas no Atheneu Commercial, ha tantos annos já, e organisadas por um nucleo de pintores conhecidos. Isso sim, isso é que foram exposições onde todos concorriam cheios d’aquella boa vontade e d’aquelle enthusiasmo que é peculiar ás almas novas; que isto não é dizer que as almas d’hoje sejam almas velhas, não, são almas novas, contudo formadas pelo systema arte-nova, tão cheia de curvas e sinuosidades, que treslouca.

Como de costume, lá fui encontrar no catalogo nomes dos que nunca faltam á chamada, honra lhes seja, Marques d’Oliveira, Torquato Pinheiro, Candido da Cunha, José de Brito e Antonio Costa, e a par d’estes, muitos outros e alguns que começam agora a apparecer.

D’entre os artistas, que expõem, a meu vêr, destacam-se Marques de Oliveira e Candido da Cunha, que são inegavelmente os que dão a nota pelo seu modo e pelos seus assumptos. José de Brito, soberbo no seu pastel Um frade, no resto sempre um tom ingente de nevoa que faz os seus quadros baços.

Torquato Pinheiro, muito bem no Retrato de meu filho, assim como, gostamos d’elle, nos seus―Fins da tarde de outomno e Rua de Villa Real.

Eduardo Moura, esse pintor, cheio de poesia intensa dos enrincões cazeiros, veio á exposição com dois quadros que já lhe conheciamos, contudo que por isso não deixarei de os mencionar, especialisando para meu gosto o―Serviço feito, que acho primoroso.

Prat, com os seus estudos não foi completamente feliz; destacam contudo aCabecita de burro, que me não desagradou.

[83]Victorino Ribeiro, com o seu―Esperando um amigo, está bem apresentado.

D. Sophia de Souza, regularmente, se bem que se nos tenha mostrado em outras exposições muito melhor.

D. Aurelia de Souza, com o seu estudo―Um africano, muito bem. Emquanto ao resto dos seus trabalhos achei-os inferiores ao seu muito talento artistico.

Antonio José Costa, como sempre, o primoroso pintor de flores, dá-nos umasCamelias bem tocadas e muito frescas.

De Julio Ramos, pouco ou nada mais temos a dizer do que o já temos dito: tem talento e sabe do metier. A sua Marinha é para mim o seu melhor trabalho n’esta exposição.

Marques de Oliveira
Marques de Oliveira

Almeida e Silva, esse, parece que desandou; as suas telas são demasiadamente recortadas e esmiuçadas. Lembrei-me com saudade de outros quadros seus, expostos em tempos idos, como por exemplo, um Viatico na aldeia e umCabeça de cabrito.

Augusto Ribeiro, é um trabalhador incansavel, produz de mais. Desenha bem e pinta com certo gosto, contudo pinta muito. Tem na exposição alguns quadros de valor e a Marinha da FozO atalho ao sol, são bons. Como notas typicas do nosso meio são interessantes as manchasitas do BolhãoAnjo e dos Ferros Velhos.

Francisco Gil, é um pintor da Figueira da Foz que tivemos o prazer de vêr pela primeira vez; os seus trabalhos são (perdoem-me o francez) comme ci comme ça.

Lago Pinto, é um novo que promette muito e que se apresenta com vontade de fazer alguma cousa. São muito [84]recommendaveis os seus quadros Fim da tarde eLavadeiras, em que a agua está bem estudada.

Flores―D. Leopoldina Maia Pinto
Flores―d. leopoldina
maia pinto

Teixeira Bastos, é um pintor de Lisboa que veio ao Porto mostrar-nos que tem talento artistico, dando-nos a impressão de que vê muito bem. O que especialmente o torna notado é o magnifico tom de luz que dá aos quadros. Os castanheiros, foi para mim o que mais me agradou; são dignos de menção a Cabeça da rapariga e Canto do Rato.

D. Leopoldina Pinto é uma amadora distincta.

Carlos Gomes Fernandes, é tambem um amador que começa. É provavel, que de futuro nos dê quadros, que se tornem notaveis, por emquanto é, a nosso vêr, um amador que tem vontade de fazer alguma coisa.

Fallei de todos contudo deixei para o fim Marques de Oliveira e Candido da Cunha, porque a meu vêr são os dous pintores que attestam profundamente o seu temperamento artistico.

Marques de Oliveira é inegavelmente um mestre e não era preciso que eu o dissesse, eu que sou um zero no nosso meio critico. Os seus quadros Cercanias d’AguedaO Combro e as Lavadeiras são obras primas de desenho, de côr e de luz.

Candido da Cunha, poeta triste da pintura, amando a luz iriada dos poentes, dá-nos quadros maravilhosos, destacando como florão da sua corôa de artista a Hora nostalgica. Não devemos contudo esquecer a sua Casa rustica e os seus Moinhos em Leça. Ha tambem na exposição um trabalho d’este artista que me extasiou. É o retrato da esposa do pintor, feito a carvão (claro escuro). Trabalho que por si só bastaria para n’outro meio, que não o nosso, dar o nome a um artista. Correcto de desenho, é superiormente primoroso.

Falta fallar d’um amador, tão distincto que não pude fugir ao desejo de lhe reservar um logar mais para o fundo, [85]para que fizesse alguma impressão d’elle, ao leitor amigo, que tivesse a pachorra de me lêr até ao fim. Refiro-me a Alberto Ayres de Gouveia, discipulo de Marques d’Oliveira e que honra o mestre. Sabiamos de ha muito que este cavalheiro se dedicava á pintura, contudo francamente, julgavamos que elle fosse um dellitanti como 

A Caridade―Teixeira Lopes
A Caridade―teixeira lopes

muitos outros, que tendo tempo livre, se entretinha a fazer pequenas cousas sem valor, mas, ao comtemplarmos a sua obra, ficamos confuzo. Era uma revelação… Trabalho agigantado o seu, topando um assumpto sublime, tal como a Vida de Jesus. Pintor mystico com tal pujança nunca o imaginaramos. Vemos que elle se sae brilhantemente da empreza em que se metteu. Os seus quadros a Palavra do Mestre e oChristo morto são verdadeiras obras d’arte. Figuras estudadas com cuidado, pousadas naturalmente sem poses academicas, tendo vida e verdade, luz e côr escolhidas com sciencia; pinceladas largas e justas eis o que se encontra n’aquelles dois quadros.

No seu Lettre de Colombine, ha um effeito de luz admiravelmente estudado. Mas, Ayres de Gouveia não é só correcto nos seus quadros biblicos e de phantasia, é-o tambem quando faz o retrato, assim podemos dizer que é bom o seu oleo e retrato de mademoisselle M. F. A.

E desenhando a pastel ou a claro-escuro, tambem se [86]nos revela um verdadeiro artista; são para notar o seu Apollo e Retrato de mademoiselle Allen, (ambos a pastel) e cabeça de estudo, (a crayon).

Mas, não digamos mais nada d’esse amador, que podem julgar para ahi que eu sou amigo d’elle e vim aqui só para o elogiar, e eu não quero isso.

Passemos agora rapidamente á esculptura, deixando em branco as aguarellas, porque francamente não gostamos de nenhuma.

Em esculptura destaca-se em primeiro logar Fernandes de Sá com a sua Cabeça de Velho e o retrato do medico Correia de Barros, este ultimo um trabalho flagrante de verdade.

D. Joanna Andressen revela-se-nos uma amadora distincta, pois em pouco tempo fez progressos grandiosos.

D. Albertina Falker: não gostei do seu Bébé. Não sei que lhe achei de mau, talvez a posição d’aquella cabecita… Não sei…

Com respeito a arte applicada, só direi, que tenho visto muito melhor do que aquillo.

E acabou-se a resenha das minhas impressões.

Antes, contudo, de fechar este despretencioso artigo uma, como que nota final.

Eil-a:

Uma coisa urge fazer de futuro em exposições congéneres. Destacar em grupos definidos os artistas e os amadores; a cada um o seu logar.

Poderão mais facilmente ser apreciados os seus trabalhos, e não teremos ao primeiro relance uma impressão tão má. Aproveitam todos mais, os artistas, porque juntos, ver-se-hão obrigados a applicar todas as suas aptidões para se destacarem uns dos outros: os amadores, no seu modo de fazer um pouco gauche, não terão o confronto dos quadros dos mestres que, quasi sempre, os esmagam. Assim, ao entrar n’um Salon tanto o critico d’arte, como o amador ou o indifferente, saberá, logo o desconto que tem a dar aos trabalhos, dos que começam, ou fazem arte para entreter e não fará injustas apreciações. Este, é o meu modo de vêr e penso bem que os proprios artistas me acompanharão n’elle.

Quando contudo um amador se impozer pelos seus trabalhos, como os de Alberto Ayres de Gouveia, então que entre [87]desassombradamente no gremio dos artistas e que se sujeite á critica rigorosa dos que sabem do assumpto.

Emquanto assim não acontecer, estas exposições não terão um caracter definido, não terão o ar correcto d’um verdadeiro Salon. Dar-nos-hão simplesmente a impressão da sala d’um burguez endinheirado, que finge ter gosto pela Arte.

Ahi fica a impressão que me deixou a visita feita á Exposição de Pintura do Pateo da Misericordia.

Dezembro de 1902.

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa do Porto―Velloso Salgado
Panneaux decorativo
na Sala da Bolsa do Porto
velloso salgado

 

Fonte: Lemos, Antônio de. Notas d'Arte.  TYPOGRAPHIA UNIVERSAL.  PORTO. 1906

					
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