PINTORES PORTUENSES

 

† MANUEL SAN ROMÃO

É com um grande prazer, cheio de saudade, que rapidamente me vou occupar d’um bello e real talento de aguarellista, infelizmente morto.

Manuel San Romão
Manuel San Romão

Quando elle se finou, sob a dolorosa impressão que me deixou a sua morte, não me atrevi a vir a publico, depor na sua campa o meu ramilhete de flores, fazendo a apologia do seu saber e das suas largas aptidões para a pintura. Esperei esse grande acto de justiça dos outros, dos que então eram os criticos d’arte da nossa terra.

Mas, nenhum, nem um só, compriu com esse dever e Manuel San Romão desceu á mudez profunda do tumulo sem que alguem viesse dizer que a Arte tinha perdido um dos seus filhos mais estremecidos e o mais apaixonado dos seus amantes.

Não me admirou que a critica artistica da nossa terra [68]se esquecesse de San Romão, por isso que, o querido morto, não era d’aquelles que se expunham á admiração de ninguem; vivia para os seus trabalhos apenas, dispensando o reclamo pomposo das gazetas e a vida turbulenta dos clubs, exempto de coteries.

Na Espectativa―Aguarella de M. San Romão
Na Espectativa―Aguarella de
m. san romão

Era talvez um misantropo. Talvez. Mas, o que inquestionavelmente elle sempre foi, era um grande sabedor de cousas d’arte.

Conheci-o bem na sua boa intimidade. Era um perfeito cavalheiro, um verdadeiro gentleman; cavaqueador brilhante e fluente fallando d’Arte com uma tal elevação e enthusiasmo, com uma tal proficiencia e um tão grande saber que, n’essas occasiões, fazia-nos lembrar um douto professor preleccionando eloquentemente sobre assumptos da sua especial e authorisada competencia.

Ao ouvi-lo discorrer como mestre sobre esses mil inconvenientes intrincados e complexos da Arte na sua mais ampla acepção, convenciamo-nos de que quem fallava não era um dilettanti da pintura, contudo um critico justo e sabedor, um verdadeiro homem do metier.

Com elle tive longas, longuissimas conversas no seu confortavel atelier do largo do Viriato, e foi d’alli, talvez, que me veio este prurido de fallar em artistas e coisas d’arte…

Que saudades tenho d’esse tempo, das magnificas tardes que passei, em aquelle atelier pequenino e confortavel como gabinete d’uma delicada dama, replecto d’uma suavidade de luz e n’uma tão artistica disposição e tão cheio de flores, que fazia lembrar uma capellinha em festa…

[69]E capellinha era em verdade, onde a Deusa Aguarella era venerada, com um respeitoso enlevo, pelo seu sacerdote querido, por isso que Manuel San Romão era um aguarelista hors ligne.

Paisagem―Aguarella de M. San Romão
Paisagem―Aguarella de
m. san romão

Para mim, o querido extincto foi um dos primeiros aguarellistas portuguezes; a sua maneira especial de manchar ainda não foi suplantada por mais ninguem. Nem mesmo o grande pintor Casanova, que foi professor de San Romão, e que é inegavelmente um mestre na aguarella, nunca conseguiu dar aos seus trabalhos aquelle tom especial de mancha que era uma das grandes superioridades de Manuel San Romão. E isto fazia-o elle naturalmente, instintivamente… Aquelle modo era o seu, d’ahi talvez a impossibilidade de ser igualado.

Depois, San Romão dava aos seus trabalhos uma tal frescura, uma tal transparencia e uma tal suavidade de cores, que as suas aguarellas eram como uma pintura ideal que sempre nos fascinava.

E como elle desenhava!… Attestavam bem o seu estudo do desenho as pastas carregadas de trabalhos feitos por elle… Muitos d’esses desenhos tenho-os eu em meu poder, deliciosos pedaços dum grande poema d’Arte…

Pelas gravuras que acompanham o nosso artigo, perfeitamente o leitor póde verificar que as affirmações que fazemos são, por todos os motivos muito justas e muito verdadeiras.

fidalgo antigo é uma soberba aguarella d’um vigor de execução e d’uma correcção inexcedivel de desenho, e o quadro No directorio, e a Paisagem de Santa Maria de Boure, [70]e esses pequenos trabalhos, essas lindas figuras de mulher, essas deliciosas paginas de livros e todos esses desenhos não serão manifestações seguras do seu talento e do seu valor?!… São! ninguem o pode duvidar…

Paisagem―Aguarella de M. San Romão
Paisagem―Aguarella de m. san romão

Mas, Manuel San Romão não era tão conhecido do publico como devera ser, por isso que elle não vendia os seus quadros, dava-os. Foi ao menos feliz em não necessitar de negociar com o seu trabalho… Vivendo na abastança não fazia da Arte um negocio, fazia d’ella unicamente um culto intenso e sincero.

D’ahi os seus quadros, esses primores de aguarella estarem apenas espalhados por um meio restrito de amigos.

Manuel San Romão não era exclusivamente um aguarellista, contudo tambem um terrivelbric-à-braquista. Collecionava tudo quanto fosse arte, gravuras, quadros, mobiliario, faianças e, em especial, livros artisticos.

Era uma delicia visitar a sua moradia… Que encantadoras cousas, formosos contadores, armarios soberbos de talha antiga, arcas abarrotadas de gravuras notaveis e, pelas paredes, quadros assignados pelos mais distintos mestres de pintura. [71]No seu atelier, alli, é que elle reunia o que mais fundamente lhe fallava á sua alma de artista, as faianças mais delicadas, os moveis mais requintadamente artisticos, as revistas illustradas e os livros mais preciosos. E n’uma pele meledeliciosa tudo se agrupava para dar ao atelier a forma gentil e suave do gabinete d’uma fina duqueza e o ar sereno d’uma capelinha em festa.

Que a memoria saudosa d’este falecido querido, que foi um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferença publica para a expôr á veneração e respeito de todos aquelles que vêem nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.

1904.

Uma sevilhana―Aguarella de M. San Romão
Uma sevilhana―Aguarella de
m. san romão

 

Fonte: Lemos, Antônio de. Notas d'Arte.  TYPOGRAPHIA UNIVERSAL.  PORTO. 1906

					
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