Parece que seria preciso estar fora de si para negar que os estômagos sejam feitos para digerir, os olhos para ver e os ouvidos para ouvir. De outro lado, é preciso ter um estranho amor às causas finais para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos da seda nasceram na China para que tenhamos cetim na Europa.

Mas, objeta-se, se Deus fez visivelmente uma coisa preconcebida, fez portanto todas as outras com um desígnio. É ridículo admitir a Providência num caso e negá-la em outros. Tudo o que está feito foi previsto, coordenado. Nenhuma coordenação há sem objeto, nenhum efeito sem causa; portanto tudo é de igual maneira o resultado, o produto de uma causa final; portanto é tão verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para levar lunetas e os dedos para ser ornados de diamantes quanto é verdade que os ouvidos foram feitos para ouvir os sons e os olhos para receber a luz.

Creio ser muito fácil esclarecer essa dificuldade. Quando os efeitos são invariáveis em todo lugar e em todos os tempos, quando esses efeitos uniformes são independentes dos seres a que pertencem, então existe uma causa final visível.

Todos os animais têm olhos, e enxergam; todos têm uma boca com a qual comem; um estômago ou coisa semelhante, pelo qual digerem; todos, um orifício que expele os excrementos, todos um órgão gerador: e esses dons da natureza operam neles sem auxílio de meios artificiais. Eis ai causas finais claramente estabelecidas, e seria perverter nossa faculdade de pensar pretender negar uma verdade tão universal. Contudo as pedras, em toda parte e em todos os tempos, não fazem construções. Nem todos os narizes levam lunetas. Nem todos os dedos têm anel; nem todas as pernas são cobertas por uma meia de seda. Um bicho de seda, portanto, não foi criado para cobrir as pernas assim como a vossa boca foi feita para comer e vosso posterior para ir à secreta. Existem, pois, efeitos produzidos por causas finais e grande número de outros que não o são.

Contudo tanto uns como outros figuram de igual maneira no plano da providência geral: nada sem dúvida pode ser feito mau grado seu, nem mesmo sem ela. Tudo que pertence à natureza é uniforme, imutável, é obra imediata do Senhor; foi ele quem criou leis pelas quais a Lua entra em três quartos nas causas do fluxo e do refluxo do oceano e o Sol no quarto; foi ele que deu movimento de rotação ao Sol, mediante o qual esse astro envia, em cinco minutos e meio, raios de luz aos olhos dos homens, dos crocodilos e dos gatos.

Mas se depois de tantos séculos nós nos lembramos de inventar tesouras e espetos, de tosquiar com umas a lã dos carneiros e de os cozer com os outros para comê-los, que outra coisa se pode inferir senão, que Deus nos fez de modo que um dia nos tornássemos necessaria­mente industriosos e carniceiros?

Naturalmente os cordeiros não foram feitos de forma alguma para ser cozidos e comidos, porquanto grande número de nações se abstêm dessa coisa horrorosa; os homens não foram criados fundamentalmente para se chacinarem, pois os brâmanes e os quakers não matam ninguém; contudo a massa de que somos feitos produz morticínios freqüentes, assim como produz calúnias, vaidades, persecuções e impertinências. Não que a constituição do homem seja precisamente a causa final de nossos furores e de nossas tolices: porque uma causa final é invariável em todos os tempos e lugares; contudo os horrores e os absurdos da espécie humana não figuram menos na ordem eterna das coisas. Quando batemos o trigo, o batedor é a causa final da separação do grão. Mas se esse batedor, batendo o grão, esmaga também milhares de insetos, não é por nossa vontade determinada, nem tão pouco por acaso: é que esses insetos se encontraram nessa ocasião sob o nosso cacete e aí deviam estar.

É em virtude da natureza das coisas que um homem é ambicioso, que esse homem arregimenta algumas vezes outros homens, que seja vencedor ou que seja batido; contudo jamais se poderá dizer: o homem foi criado por Deus para ser falecido na guerra.

Os instrumentos que a natureza nos deu não podem ser sempre causas finais em movimento, que tenham efeito infalível. Os olhos, dados para ver, não estão sempre abertos; cada sentido tem seus momentos de repouso. Existem até sentidos que nunca usamos. Por exemplo, uma pobre imbecil, encerrada num convento aos catorze anos, fecha para si a porta de onde deveria sair uma nova geraçao, para sempre; contudo a causa final não deixa de subsistir, ela agirá logo que seja livre.

 

Fonte: François-Marie Arouet Voltaire. Dicionário Filosófico. Original de 1764. Edição Ridendo Castigat Mores.

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