SOCIALISMO CRISTÃO. O termo foi utilizado, em primeiro lugar, na Alemanha e na Áustria, pelos socialistas H. Mertens e O. Bauer (1881-1938) e designava um movimento de inspiração religiosa cristã, que pretendia iden­tificar a sociedade organizada nos moldes so­cialistas com a própria instauração do reino de Deus sobre a terra.

Isto ocorreu pela década dos anos 1930. O Socialismo Cristão foi con­denado por Pio XI (1857-1939) na encíclica “Quadragesimo Anno”, condenação repetida por João XXIII  (1881-1963), na “Mater et Magistra”, sob a designação de Socialismo Moderado.

No Brasil, pelo ano de 1961, fa­lou-se muito em Socialismo Cristão, usando-se a expressão para indicar um movimento visando adotar o Socialismo como sistema político, econômico e social, contudo pretendendo-se substi­tuir a doutrina imanentista, por uma inspiração evangélica.

Supunha-se, mesmo, que o modelo socialista era o que melhor traduzia, em ter­mos de sistema, os profundas exigências do engajamento cristão. Entendia-se por Socia­lismo um sistema que, através de um Estado forte, totalitário, impusesse condições de igual­dade pela supressão do propriedade indivi­dual e acelerasse o processo do desenvolvi­mento, pela total organização da economia, pelo Estado, com o eliminação da iniciativa privada no processo produtivo.

A designação “Socialismo Cristão” gerava confusões, enquanto propiciava uma atividade política conjunta de ca­tólicos com socialistas de todos os matizes, in­clusive comunistas. A atividade conjunta levava, aos poucos, à aceitação das doutrinas socia­listas, e muitos dos que se diziam socialistas cristãos continuavam a ser socialistas, contudo dei­xavam de ser cristãos.

O fato suscitou viva oposição por parte de muitos membros da hierarquia católica, e o termo foi sendo, pouco a pouco, abandonado mesmo antes da revo­lução de março de 1964, sendo substituído pe­la expressão Socialismo Personalista, que de­fende a propriedade social como única forma justa de apropriação dos meios de produção.

Baseia-se em duas idéias fundamentais: 1.°) A propriedade privada foi sempre um instrumento de exploração do fraco pelo forte; só há um meio de libertar a grande massa de explorados: deferir ao Estado toda a propriedade dos meios de produção, para que ele, concentrando maiores possibilidades de ação, possa rapidamente criar condições reais de igualdade e de justiça social. 2.°) Existe um paradoxo intolerável entre o cará­ter social da produção e o caráter individual da apropriação dos meios de produção e de seus resultados. A produção só é social, neste sentido que é na sociedade que arregimenta a força do trabalho, recolhe as poupanças e encontra os mercados para sua comercializa­ção, contudo a propriedade continua sendo pri­vada, nas mãos de indivíduos e grupos que o orientam segundo seus interesses particulares.

O termo Socialismo Personalista envolve uma contradição: se é Socialismo, implica em uma supremacia do social sobre a pessoa e, por­tanto, não pode ser personalista; se é perso­nalismo, implica numo supremacia da pessoa sobre o social e não pode ser Socialismo. Por outro lado, as razões em que se baseia nõo
são concludentes. Mesmo que se admitisse a premissa de ser a propriedade inevitavelmente um instrumento de exploração, isso mostraria que ela não deveria concentrar-se toda nas mãos do Estado, isto é, de um pequeno nú­mero de burocratas instalados no poder, con­ferindo-Ihes o controle de um formidável me­canismo de exploração. A primeira premissa do Socialismo Personalista não deveria condu­zir, pois, a um modelo do Socialismo Estatal, contudo a um modelo de socialização do proprie­dade. Quanto à segunda, evidentemente a so­lução não seria a coletivização total da pro­priedade, pois o Estado contemporâneo pode perfei­tamente superar a questão, impondo à pro­priedade privada, o exercício de sua função social, enquadrando-a na execução do plano global, através de uma apropriado política de crédito, de câmbio e de impostos. É o que, aliós, se vem realizando em todos os países desenvolvidos, mais eficazmente do que nos países ditos socialistas.

Fonte: Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo – Fernando Bastos de Ávila – Fundação Nacional de Material Escolar – Rio de Janeiro – 1972

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