foto/divulgação: Sí­lvio Sousa

Uma Vida em Segredo

Segundo longa-metragem realizado por Suzana Amaral, 16 anos depois de A hora da estrela, Uma vida em segredo também é uma adaptação de importante obra literária (neste caso escrita por Autran Dourado), igualmente centrada em uma forte personagem feminina principal. Através da vida de Biela, a diretora se dedica com enorme atenção à dificuldade de convivência entre um Brasil rural e os nascentes costumes de uma nova classe urbana. Ganhador dos prêmios de melhor atriz (Sabrina Greve) no Festival de Brasília, e de melhor filme, atriz, fotografia e direção de arte no CineCeará. 

 

Quando: 17/10/2012 Quarta Feira

Horárrio da Sessão: 19h

Onde: Auditório da Biblioteca M. Professor Barreiros Filho (Rua João Evangelista da Costa, 1160 – Estreito – 3271 7914)

Classificação Livre

Entrada Gratuita

 

Sobre o Filme:

 

A imagem de um monjolo (máquina movida a água que faz funcionar um grande pilão) em pleno funcionamento parece “assombrar” Uma vida em segredo desde o começo até quase o final. Entendemos logo que é uma das lembranças mais preciosas da personagem Biela (interpretada por Sabrina Greve), do tempo em que morava no interior do país, no chamado Fundão. Nunca veremos muito mais do que este equipamento, contudo basta ele e a presença de uma canção de ninar na trilha sonora para sabermos que Biela nunca conseguirá se libertar de um passado com o qual se sente bem mais à vontade do que na casa de seus primos, onde vai morar depois da morte dos pais.

Uma vida em segredo se passa quase que totalmente nesta nova casa, onde Biela encontra grande dificuldade de se relacionar com as pessoas e os costumes à sua volta, embora seja recebida com o máximo de interesse e carinho pelos parentes. Na verdade, não se trata de uma indisposição entre pessoas, contudo sim entre uma pessoa e um novo meio, no qual o convívio social cheio de pequenas regras cotidianas é particularmente importante. É com essas regras que Biela não consegue se entrosar, mais do que com as pessoas. Ela até se dispõe a aceitar alguns dos costumes, como as visitas ou mesmo um casamento arranjado, mas, quando nenhum deles parece capaz de fazer com que ela esteja de fato mais integrada, acaba decidindo retirar-se cada vez mais para dentro de si e do pouco com que consegue se relacionar diretamente – sejam os hábitos de fazer comida, seja um animal como o cachorro abandonado que a segue numa noite. A grande crença que a diretora Suzana Amaral reforça aqui, depois de seu premiado longa de estreia, A hora da estrela (1985) — programa 14 da Programadora Brasil —, é a de que o cinema, ao mostrar um mundo

físico através da presença dos atores em determinadas locações, pode atingir a mesma profundidade de sentimentos que as grandes obras da literatura. Não por acaso, depois de se dedicar ao clássico de Clarice Lispector, ela se volta aqui a mais um romance importante e extremamente complexo, desta vez escrito por Autran Dourado. Biela é uma presença profundamente interiorizada no texto de Dourado, a quem temos acesso justamente pela linguagem escrita. A aposta de Suzana

Amaral é a de que, com a presença de uma atriz, possamos atingir o interior desta personagem de maneira, se não igual, ao menos análoga à que um livro nos permite.

Para dar corpo a essa crença, Suzana Amaral trouxe para o cinema pela primeira vez a atriz Sabrina Greve, oriunda de uma carreira teatral com constituição pelo CPT (Centro de Pesquisa Teatral) de Antunes Filho. Em determinada cena, depois do fracasso do seu projeto de casamento, a personagem interpretada por ela se senta frente a um espelho e vai de uma risada contida ao desespero que a leva a rasgar suas vestes.

É uma cena que indica para o espectador a profundidade dos conflitos da personagem

que, de forma superficial, poderia ser entendida como simplória. É num momento como este que Biela, através de Sabrina Greve, atinge a dimensão que Suzana Amaral espera dela. A crença da cineasta (reforçada em seu terceiro longa, Hotel Atlântico, 2009) de que a imagem cinematográfica pode ter a mesma profundidade que a arte literária, sem precisar explicitar coisas que podem ficar subentendidas

pelo espectador, talvez seja sua mais profunda qualidade.


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